AP Photo/Denis Poroy
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Pai brasileiro não vê o filho de 9 anos há 26 dias após serem separados na fronteira dos EUA

Homem de 31 anos afirmou estar preocupado porque a criança só fala português; autoridades americanas trabalham com dificuldade para reunir famílias após decreto de Trump

O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2018 | 03h39
Atualizado 22 de junho de 2018 | 15h05

RIO DE JANEIRO - Vinte e seis dias depois de ser detido na fronteira dos Estados Unidos com o México com o filho de nove anos, um homem brasileiro de 31 anos disse não ter a menor ideia de quando poderá se reencontrar com a criança.

Em uma entrevista por telefone a partir do Centro Correcional do Condado de Cibola, na cidade de Milan, no Estado do Novo México, o brasileiro disse que falou ao telefone com o filho apenas uma vez desde que foram separados. O homem entrou com pedido de asilo nos Estados Unidos e concordou em falar com a agência de notícias Associated Press sob a condição de que sua identidade não fosse revelada. Ele teme pela sua vida se retornar ao Brasil.

"Ele chorou. Estava muito triste", disse, sobre a única conversa com o menino. "Eu prometi para ele que seriam apenas três a cinco dias (de separação)." O homem é de Minas Gerais e disse ter pedido recentemente o emprego em uma padaria. Afirmou ainda ter dívidas de R$ 30 mil e estar sendo perseguido por uma organização criminosa, mas não revelou mais detalhes sobre a questão.

Ele decidiu emigrar para os Estados Unidos para encontrar emprego e enviar dinheiro para a mulher e o outro filho, de três anos. Pai e filho embarcaram para a Cidade do México e conseguiram cruzar a fronteira para San Ysidro, já no território da Califórnia, mas foram interpelados por agentes de imigração dos Estados Unidos.

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Ambos foram então enviados para um centro de detenção onde havia muitas outras famílias. "Por dois dias, só o que nos ofereceram foi Doritos, barras de cereal e suco." O brasileiro foi informado então de que o filho seria levado para uma unidade de menores, e que eles ficariam separados por não mais do que cinco dias.

"Eu não queria assustá-lo. Eu disse 'veja, filho, vou ficar longe três dias, cinco no máximo, e depois vou vê-lo de novo'", disse o pai. "Ele chorou e me abraçou. É um bom garoto, nunca esteve longe de mim ou da mãe." Dez dias depois, o brasileiro soube que o menino havia sido enviado para uma unidade de imigrantes em Chicago, no Estado de Illinois. Ele procurou ajuda em um serviço de auxílio jurídico por telefone e conseguiu conversar por 20 minutos com o filho.

Naquele momento, a criança já havia conseguido estabelecer contato com a mãe no Brasil. Em entrevista na noite da quinta-feira, 21, a mãe do garoto disse à Associated Press que o filho tem autorização para fazer ligações às segundas e às quintas, por no máximo 30 minutos por vez. A mulher afirmou que o garoto está mais calmo do que aparentava nos primeiros contatos, mas que ele permanece ansioso. O garoto toma remédio para hiperatividade, que continuou oferecido durante a detenção.

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"Ele chora muito e quer ir embora", disse a mãe, que tem 31 anos e trabalha como faxineira em edifícios comerciais. "Ele está mais calmo agora, mas quer ir embora de lá. É horrível, terrível. As crianças estão sofrendo. Os pais também."

Pai e mãe disseram que têm questionado insistentemente as autoridades de imigranção sobre quando poderão rever o filho, sem resposta conclusiva. Ambos nutrem a esperança de que a ordem executiva assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quarta-feira, 20, para acabar com a separação de famílias de imigrantes os ajude - o que até agora não ocorreu.

O pai disse que teve uma entrevista sobre o pedido de asilo na quinta-feira, 22, durante a qual aproveitou para perguntar sobre o filho. O agente de imigração informou apenas que a criança estava sob responsabilidade de outro departamento.

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A mãe afirmou que também recebe informações vagas da unidade em que o filho se encontra, através do advogado de um escritório sem fins lucrativos que ajuda imigrantes. O escritório ingressou com diversas ações em nome do menino de nove anos e de um outro brasileiro, um adolescente de 15 anos que também foi separado do pai. Os processos alegam que a separação das famílias é ilegal, e pede o reencontro delas.

"Estamos ingressando com essas ações porque o que essas famílias estão vivendo é uma farsa", disse a advogada Karen Hoffmann. "Ninguém sabe como será a reunificação. O governo certamente não sabe."

Confusão.

A ordem do presidente Donald Trump para dar fim à separação de famílias de imigrantes ilegais espalhou confusão pela fronteira sul dos Estados Unidos, com autoridades ainda trabalhando para reunir famílias, ao mesmo tempo em que dão sinais conflituosos sobre a política de tolerância zero.

Os pais que estão presos têm dificuldade para entrar em contato com seus filhos, alocados, em muitos casos, em instalações improvisadas a centenas de quilômetros de distância. Alguns disseram que nem sabiam onde estavam seus filhos, outros foram deportados sem as crianças.

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Apesar das críticas dentro do país e na comunidade internacional, Trump se posicionou de maneira rígida sobre a crise, acusando o Partido Democrata de contar "histórias falsas sobre tristeza e pesar". "Não podemos permitir que nosso país seja invadido por imigrantes ilegais", disse o presidente, pelo Twitter.

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Um funcionário de alto escalão do governo informou que cerca de 500 das mais de 2,3 mil crianças tiradas de suas famílias na fronteira estão reunidas desde maio. Agências federais americanas estão trabalhando para criar um processo de reunificação centralizado para todas as crianças que estão em um centro de detenção no Texas, disse o funcionário, que concedeu entrevista sob a condição de anonimato.

Tolerância zero.

Também houve sinais de que o governo está suavizando seu posicionamento na política de tolerância zero, que processa criminalmente todos os adultos que forem pegos em flagrante ao cruzar a fronteira ilegalmente.

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A defensoria pública que cobre a região de El Paso, em San Antonio, disse na quinta-feira 21, que promotores federais estavam dispensando os casos de pais que foram acusados de entrar no país ilegalmente e separados de seus filhos. "Daqui em diante, não vão mais fazer acusações criminais contra um pai ou pais que entrem nos Estados Unidos e estiverem com seus filhos", disse o defensor público Maureen Scott.

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Na cidade fronteiriça de McAllen, no Texas, promotores federais, numa decisão inesperada, não apresentação acusações contra 17 imigrantes. Um dos promotores citou a ordem executiva assinada por Trump na quarta-feira 20, dando fim à prática de separar famílias, como justificativa para a decisão.

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No entanto, o Departamento de Justiça nega que a tolerância zero tenha sido revertida. "Não houve mudança na política de tolerância zero do departamento para processar adultos que cruzam nossa fronteira ilegalmente, em vez de reivindicar asilo em qualquer porto de entrada na fronteira", disse a porta-voz Sara Flores.

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Do lado de fora do tribunal federal em McAllen, o advogado de imigração Efren Olivares disse que 67 pessoas foram indiciadas na manhã desta sexta-feira, 22, por cruzar de forma ilegal a fronteira, mas nenhuma delas era pai ou mãe acompanhados de crianças.

Reencontro.

Um menino de 7 anos e sua mãe, separados há um mês, se reuniram nesta sexta-feira, depois que ela entrou com um processo em um tribunal federal e o Departamento de Justiça concordou em libertar a criança. Os dois se reencontraram no início da manhã, no Aeroporto Internacional de Baltimore-Washington, em Maryland. A mãe, Beata Mariana de Jesús Mejía-Mejía, havia pedido asilo político depois de cruzar a fronteira com seu filho, Darwin. Eles vieram da Guatemala.

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A incerteza na fronteira cresceu quando Trump, de maneira abrupta, reverteu a política de tolerância zero, diante do clamor internacional contra a separação de famílias. O presidente disse que as famílias seriam mantidas juntas. A suspensão da prática deixou uma série de perguntas não respondidas, incluindo onde o governo vai abrigar imigrantes recém detidos no sistema que está superlotado, assim como onde pais e filhos serão mantidos juntos.

A administração começou a elaborar planos para abrigar até 20 mil crianças imigrantes em bases militares, embora autoridades tenham fornecido informações conflitantes a respeito dos planos. O Departamento de Justiça também foi aos tribunais, em uma tentativa de derrubar um acordo de décadas, que limita a 20 a quantidade de dias em que crianças migrantes podem permanecer detidas com seus parentes.  /AP

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