EFE/EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON
EFE/EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

Detidos entre a Polônia e a Belarus, 32 afegãos se tornaram símbolos da nova crise de fronteira

Um grupo de 27 homens, quatro mulheres, uma adolescente de 15 anos, que fugiu do Afeganistão, está preso há mais de três semanas próximo à aldeia polaca de Usnarz Górny

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 12h39

BERLIM - Acampados em um aglomerado de pequenas tendas à beira de um campo lamacento na fronteira da Polônia com a Belarus, 32 refugiados afegãos se tornaram símbolo da mais recente disputa de fronteira na Europa.

O grupo de 27 homens, quatro mulheres, uma adolescente de 15 anos e um elegante gato cinzento, que dizem ter viajado com eles desde o Afeganistão, está preso há mais de três semanas perto da aldeia polaca de Usnarz Górny. Os guardas poloneses da fronteira se recusam a deixá-los entrar no país onde procuram proteção, e a Belarus não os deixa voltar.

“É totalmente desumano”, disse o parlamentar polonês Franciszek Sterczewski, que foi filmado tentando passar pelos guardas da fronteira com uma sacola de suprimentos na semana passada, durante sua estada de oito dias em uma tenda no local.

O parlamentar chamou de apenas a "ponta do iceberg" mais visível em uma batalha sobre a migração na borda oriental da Europa, que viu os requerentes de asilo vulneráveis neste pingue-pongue entre as fronteiras.

Na quinta-feira, o presidente polonês, Andrzej Duda, declarou estado de emergência em 183 cidades e vilarejos nas duas províncias vizinhas à Bielo-Rússia, a primeira vez que tais poderes foram usados desde a queda do comunismo. A medida limita o acesso à região de fronteira àqueles não autorizados pelo governo.

Isso acontece no momento em que o líder da Belarus, Alexander Lukashenko, irritado com as sanções da União Europeia, é acusado de retaliar abrindo rotas para milhares de migrantes entrarem no bloco. A Lituânia, que também é vizinha de Belarus e acusou Lukashenko de usar os refugiados em um “ataque híbrido”, já ergueu cercas de arame farpado e reforçou seus guardas de fronteira em meio a uma onda de tentativas de entrada no país.

A Polônia, liderada pelo partido populista Lei e Justiça, que defende uma postura linha-dura anti-imigrantista, diz que Lukashenko tem usado táticas semelhantes em sua fronteira, registrando 3.500 tentativas de migrantes de cruzar a Belarus desde o início de agosto - em comparação a zero no mesmo período há um ano.

A Anistia Internacional levantou alertas na quinta-feira, 2, de que o “estado de emergência” significará “riscos graves” para requerentes de asilo que tentem chegar à Polónia e agravar as condições para os 32 afegãos que dizem estar em “situação terrível”. O jornal afirma que lhes foi negado acesso adequado a alimentos e água potável - uma acusação que as autoridades polonesas negam.

Separadamente, um afegão de cinco anos que foi retirado do país pela Polônia a pedido do governo britânico morreu na quinta-feira após comer cogumelos venenosos enquanto permanecia em um centro de refugiados perto de Varsóvia. Seu irmão de 6 anos continua em estado crítico.

Enquanto grupos de direitos humanos levantaram preocupações sobre a saúde dos 32 afegãos nas últimas semanas, sua situação atraiu grupos de apoiadores, grupos de direitos e mídia para a fronteira.

Sterczewski e grupos de direitos humanos dizem que o objetivo das medidas de emergência é cortar o acesso aos refugiados em meio à crescente publicidade e permitir que os requerentes de asilo sejam rejeitados sem testemunhas.

A ordem vai impedir que jornalistas, advogados e ativistas de direitos humanos entrem em um trecho de terra de três quilômetros ao longo da fronteira de 261 quilômetros.

“É apenas para ocultar as atividades ilegais de nossas forças”, disse Sterczewski. A Polônia diz que o grupo de afegãos ainda está no território da Belarus, e cabe à Bielo-Rússia lhes dar proteção.

Como eles foram forçados a abandonar a área devido ao estado de emergência na noite de quinta-feira, a Fundacja Ocalenie, uma organização polonesa que tem monitorado a situação dos afegãos, explicou o que estava acontecendo com os afegãos pelos cordões da polícia usando um alto-falante.

“Faltam palavras para descrever a maldade das autoridades polonesas”, escreveu o grupo no Twitter. “Mas tivemos que encontrar palavras para dizer às pessoas pelas quais lutamos que devemos deixá-las hoje. Também dissemos que não vamos parar de lutar por elas”. 

Kalina Czwarnóg, membro do conselho da Fundacja Ocalenie e que passou duas semanas acampada na fronteira, disse que seus ativistas inicialmente puderam falar com os requerentes de asilo, que afirmam ter deixado o Afeganistão e viajado de caminhão para a Belarus, uma viagem de cerca de 25 dias.

Eles passaram cerca de 11 dias dormindo na fronteira, depois de serem impedidos de entrar na Polônia antes que a Fundacja Ocalenie chegasse e trouxesse cerca de meia dúzia de barracas, segundo Czwarnóg. Existem preocupações específicas sobre a saúde de uma das mulheres mais velhas, que tem problemas nos pulmões e nos rins, disse ela.

A agência das Nações Unidas para os refugiados pediu no mês passado à Polônia que fornecesse ao grupo preso na fronteira acesso ao seu território, assistência jurídica e apoio. Mas eles seguem isolados, com a polícia empurrando seus apoiadores a uma distância de algumas centenas de metros, reduzindo a comunicação para alto-falantes de um lado e gritos e sinais com as mãos do outro. A Polônia disse que, com o aumento do número de travessias, irá construir uma cerca de 2,5 metros ao longo da fronteira com a Belarus.

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