Deus pode salvar o Egito?

País só avançará se Morsi perceber que não é um autocrata e oposição apresentar ideias melhores

É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h06

Hoje, quando você voa sobre o Mediterrâneo, vê ao norte um sistema supranacional de Estados europeus que está desmoronando. Ao sul, um sistema de Estados nacionais árabes que também vem se desfazendo. É uma combinação inquietante e mais uma razão para os EUA colocarem a casa econômica em ordem para se tornar uma rocha de estabilidade mundial.

Isto porque, eu temo que a situação do lado árabe do Mediterrâneo piore. O Egito envereda pelo caminho perigoso de um confronto civil prolongado, a menos que encontre um modus vivendi entre o presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, e sua oposição. Se Síria e Egito se desintegrarem, a região inteira ficará desestabilizada. Por isso, num grande cartaz na estrada que leva às pirâmides está escrito: "Deus salve o Egito".

Ao ver outro dia uma jovem jornalista egípcia, coberta por um véu, atacar verbalmente uma autoridade da Irmandade em razão do comportamento abusivo do grupo, posso assegurar que a luta aqui não é entre os mais e os menos religiosos. O que os egípcios de volta às ruas é o temor de que a autocracia retorne ao país disfarçada de islamismo. O real combate tem a ver com liberdade, não religião.

As decisões de Morsi, assinando um decreto que o protege da fiscalização do Judiciário, depois concluindo às pressas uma nova Constituição e exigindo que ela seja votada em referendo no sábado sem um debate público, reavivaram os temores de que os egípcios substituíram a autocracia de Hosni Mubarak por outra da Irmandade.

Morsi e a Irmandade foram os retardatários da revolução de 2011 e se concentraram apenas em explorá-la para seus próprios objetivos, subestimando o anseio de liberdade, especialmente dos jovens. Quando alguém me pergunta o que presenciei na Praça Tahrir em 2011, respondo que vi um tigre que se libertou da jaula após 60 anos preso. Quero dizer três coisas sobre esse tigre: 1 - ele nunca retornará à jaula; 2 - não tente domá-lo pensando nos seus próprios objetivos, porque ele só servirá ao Egito como um todo; 3 - o tigre só come carne e foi alimentado com ração de mentira por 60 anos, portanto, não faça isso de novo.

Primeiro foi o Exército que subestimou o tigre e tentou colocá-lo de volta na jaula. Agora, a Irmandade tenta fazer o mesmo. O que está errado com o projeto constitucional de Morsi? Infelizmente, afirma Mona Zulficar, advogada e especialista da área, embora o projeto contemple muitos direitos fundamentais, também estabelece que esses direitos devam ser equilibrados com valores morais, sociais e religiosos. Uma linguagem que contém brechas que podem permitir que juízes conservadores restrinjam "os direitos das mulheres, a liberdade religiosa, de opinião, de imprensa e os direitos da criança, particularmente das meninas".

Como explica Dan Brumberg, especialista em Oriente Médio do Instituto da Paz, dos EUA, o projeto constitucional pode garantir a "liberdade de expressão, mas não liberdade depois de alguém expressar suas ideias". As violentas manifestações de rua - a favor e contra a Constituição - me dizem o seguinte: se ela for sancionada por Morsi, o Egito construirá sua democracia sobre um vulcão. Nunca será um país estável.

Deus não salvará o Egito. Ele será salvo apenas se a oposição respeitar a vitória eleitoral da Irmandade Muçulmana e resistir aos seus excessos não com boicotes, mas com ideias melhores. O país será salvo apenas se Morsi descobrir que eleição não significa que o vencedor leva tudo, parar de se apossar da autoridade e começar a conquistá-la. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
Visão global

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.