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Deus salve a América

Poderosos líderes evangélicos brancos recobram a antiga influência na Casa Branca de Trump

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

O clima da posse de Donald Trump foi apocalíptico. Nuvens carregadas sobre o Salão Oval ilustravam a manchete da New Yorker: “Defenda a República”, lia-se no título (contra Trump, é claro). Protestos marcaram o dia. O novo presidente, que teve 3 milhões de votos a menos que a democrata Hillary Clinton, foi empossado por um sistema eleitoral ultrapassado e é visto por muitos como um presidente ilegítimo que apontou um gabinete igualmente desajustado e cercado de acusações.

Seus eleitores, é claro, estão satisfeitos, embora Trump chegue à Casa Branca com popularidade baixa recorde entre presidentes no primeiro dia de governo. Mas um grupo parecia entusiasmado durante as festividades: poderosos líderes evangélicos brancos, que recobram a antiga influência na Casa Branca.

À frente da caravana está o mega-tele-evangelista Franklin Graham, desafeto do ex-presidente Barack Obama, escolhido por Trump para encerrar as cerimônias de posse. “Na Bíblia, chuva é um sinal da bênção de Deus”, discursou Graham. Não foi a primeira vez que falou na posse de um presidente americano. Filho do lendário evangelista Billy Graham, que participou de oito posses na Casa Branca – de Richard Nixon a Bill Clinton –, Franklin foi convidado por Bush em 2001 para a inauguração de governo no lugar do pai, já com 82 anos.

Mais radical que o velho Graham, Franklin passou a ofender abertamente o Islã após o 11 de Setembro e esteve por trás de discursos de Bush como o que sugeria uma “cruzada” contra o terrorismo. Ele se tornou o principal articulador do presidente para reunir apoio de políticos e da população (quase 50% protestantes) para a invasão do Iraque, em 2003.

Em troca, ganhou um contrato do governo com a organização cristã que preside, a Samaritan’s Purse, para oferecer ajuda humanitária no país durante a guerra – e aproveitar para tentar converter alguns muçulmanos. Nos corredores da Casa Branca, o pastor passou a ser conhecido como um chanceler extraoficial do governo Bush. 

Franklin alimentou a polêmica em torno da origem e religião de Obama, insinuando que ele seria muçulmano. Em entrevista a Christiane Amanpour, na CNN, em 2011, disse que o presidente deveria mostrar a identidade. 

Oficialmente, Franklin não tem partido, mas esteve à frente de um conselho de líderes evangélicos formado pelo magnata para guiá-lo ao longo do caminho até o Salão Oval. Trump levou 4 de cada 5 votos de evangélicos brancos, que representam uma importante fatia de 25% do eleitorado.

Além de conservadores evangélicos, entre os seis religiosos chamados por Trump para a cerimônia de ontem também estava o rabino Marvin Hier. Foi a primeira vez que um ortodoxo participou da posse de um presidencial. “Que Deus abençoe a América”, concluiu ontem Franklin Graham em seu discurso. Eu diria Deus salve a América.

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