Andre Lessa/AE
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'Deveríamos reforçar relações com países emergentes', disse candidata à Assembleia Nacional Francesa

Raquel Garrido postula uma das 11 vagas de deputados eleitos por franceses residentes no exterior

Bruna Ribeiro, do estadão.com.br,

21 Maio 2012 | 21h21

SÃO PAULO - A vida política de Raquel Garrido, candidata à Assembleia Nacional Francesa pela Frente de Esquerda, pode ser definida como um reflexo das próprias origens dela. Nascida no Chile, a também francesa disse que sempre trabalhou para reforçar as relações entre França e América do Sul. "Antes de ser advogada, eu trabalhava em relações internacionais sindicais e criei, por exemplo, as relações entre o meu sindicato e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central de Trabalhadores da Argentina (CTA)", disse a candidata. "Para mim é natural ser representante dos franceses que estão aqui, pois a maior parte deles tem família e nós defendemos a riqueza da dupla nacionalidade", completou.

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Ela postula uma das 11 vagas de deputados eleitos por franceses residentes no exterior, na região que se estende do México até a Patagônia, compreendendo 33 países. Raquel, que já passou pelo Rio de Janeiro e ainda vai para Buenos Aires, Montevidéu e Santiago, falou ao estadão.com.br sobre a ascensão do socialista François Hollande à presidência, a crise do euro, as relações entre Brasil e França e as medidas que poderiam beneficiar os franceses residentes aqui. Leia trechos da entrevista:

estadão.com.br: O que significou a vitória do presidente socialista François Hollande nas eleições francesas deste ano?

Raquel Garrido: Representa finalmente a possibilidade de fechar o terrível parênteses que foi a direita na França. A direita ficou no poder muito tempo, porque a esquerda sempre foi mobilizada, especialmente o movimento sindical, contra os governo de Chirac e Sarkozy, mas nunca conseguia vencer. Por fim, conseguimos isso. O que é importante agora é enfrentar a crise e o ataque especulativo do qual a Europa é vítima.

estadão.com.br: A crise na Europa mudou alguns cenários, como a eleição de um candidato socialista na França, a renúncia do ex-primeiro-ministro holandês Mark Rutte e a crise na Grécia. Como a senhora avalia a influência da crise econômica na política europeia?

Raquel Garrido: A União Europeia está vivendo uma situação que eu comparo com a situação da Argentina em 2001. O governo de centro-esquerda da Grécia não enfrentou os mercados, não mobilizou o povo contra os mercados e não renegociou a dívida. Então a Grécia ficou em uma situação terrível. Agora que este governo caiu, está emergindo uma esquerda que tem vontade de enfrentar os mercados, em particular o partido Syriza, do líder Alexis Tsipras. Então a Europa vai ter de sair da crise enfrentando os mercados e recusando as políticas de austeridade. As políticas de austeridade vão ter o mesmo efeito na Europa que tiveram na Argentina, que é deprimir a economia e impossibilitar qualquer intervenção pública, inclusive o pagamento da dívida, pois não se pode pagar a dívida, se o povo está pobre.

estadão.com.br: Na opinião da senhora, quais serão as principais mudanças da esquerda em relação ao governo de Nicolas Sarkozy internamente e também no âmbito na União Europeia, principalmente em um momento de crise?

Raquel Garrido: A principal mudança será a redistribuição da riqueza. Sarkozy redistribuiu a riqueza aos ricos. Agora, com uma política tributária, é importante recuperar este dinheiro para poder investir nos serviços públicos, mas essa política de redistribuição é complicada mesmo quando se mantém a política de disciplina orçamental. Hollande tem um problema, pois ele tem de responder a uma demanda forte dos franceses de mudar drasticamente as políticas de Sarkozy.

É importante também o que vai acontecer com as eleições legislativas, se a Frente de Esquerda terá uma parcela importante na Assembleia Nacional e também o que vai acontecer em outros países europeus, como na Grécia e na Irlanda, com o surgimento dessa nova esquerda. Em dez dias, Irlanda irá votar em um referendo sobre a austeridade. Hollande falou durante toda campanha que ele queria renegociar este pacto, mas Angela Merkel, já no dia seguinte ao dia da eleição, disse que não irá renegociar. Então o que Hollande vai fazer? O melhor método é o dos irlandeses. Se o povo votar, então tem de renegociar. Se ficar na discussão governamental, vai ser difícil mudar profundamente este pacto, que é autoritário para impor medidas muito duras. 

estadão.com.br: Na sua opinião, as relações do Brasil com a França vão mudar depois da vitória de Hollande?

Raquel Garrido: Tomara! A verdade é que a social-democracia francesa fica ainda em uma visão geopolítica do mundo muito vinculada aos Estados Unidos. A França integra o comando da Otan e não deve mudar isso. A França participou de todas essas guerras inventadas pelos EUA contra inimigos imaginários, porque eles tem um problema de crise da hegemonia do dólar, que compensam com a hegemonia militar. Até que a França não rompa com isso, vai seguir como um aliado privilegiado dos Estados Unidos e todo o resto do mundo vai ficar em segundo plano. Nós pensávamos que a responsabilidade da França é tomar consciência que esta crise é perigosa. Deveríamos reforçar relações com países emergentes, que tem uma relação de autonomia com os Estados Unidos e têm interesse em um mundo pacífico e multipolar. Isso é o que deveria ser, mas não vou mentir, Hollande pode ter boas relações com os governos daqui, mas não é o principal objetivo dele.

estadão.com.br: Alguns sociólogos dizem que, com a crise, haverá maiores movimentos populacionais nesta década. Na opinião da senhora, com isso, a atribuição dos parlamentares eleitos pelos colégios eleitorais que vivem no exterior muda?

Raquel Garrido: Sim, me parece razoável pensar assim. É possível que Europa reviva momentos de sua história onde a gente fugiu da miséria para vir para cá. Claro que hoje os franceses do exterior são vistos como expatriados e ricos, mas não é assim. Há muitas pessoas que estão vindo com dificuldades na vida cotidiana, de acesso a direitos sociais, saúde e educação. Então, como deputada dos franceses daqui, acredito que é importante ter uma compreensão disso. Hoje um dos pontos muito importantes é essa mudança de geopolítica. Além disso, Sarkozy falou muito mal da imigração durante muitos anos e seguiu até o segundo turno, falando que eles os imigrantes são um problema. Isso exportou uma imagem muito ruim da França. Então os franceses daqui querem que a imagem da França se torne positiva e que França faça um esforço para se reabilitar aos olhos de seus parceiros.

estadão.com.br: Com este novo tecido social europeu, na opinião da senhora, quais alterações são viáveis agora?

Raquel Garrido: Os temas principais que preocupam a França também tocam os franceses aqui, como a redistribuição da riqueza. Aqui temos um problema de que os franceses muitas vezes não podem colocar os filhos em um sistema escolar francês, porque é muito caro e não há apoio suficiente. Para ter mais apoio, é preciso que o país dê mais dinheiro e isso é redistribuição. Nos Estados Unidos, há impostos para todos os americanos, do mundo inteiro. Quando eles já pagaram os impostos nos países onde moram, se o imposto aplicável nos EUA for superior a isso, eles devem pagar a diferença. Essa é uma mudança que poderia ser feita na França, permitindo essa redistribuição.

Além disso, o serviço público consular cultural está muito pobre. Isso é importante e urgente, porque os franceses precisam deste contato com os serviços consulares e a França também precisa responder quando há demanda dos franceses, porque essa é a construção do mundo multipolar. Temos de colocar dinheiro até que respondam a todas necessidades. 

estadão.com.br: Qual é o interesse da senhora na América Latina?

Raquel Garrido: Para mim aqui é um pouco minha casa, porque eu nasci no Chile. Na vida política, eu sempre trabalhei para reforçar as relações com a América do Sul. Antes de ser advogada, eu trabalhava em relações internacionais sindicais, eu que criei as relações entre o meu sindicato e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central de Trabalhadores da Argentina (CTA). Sempre fiz um esforço importante para reforçar essas relações. Para mim é muito natural ser a representante daqueles franceses que estão aqui, muitos deles em matrimônios mistos, que geram filhos de dupla nacionalidade. Tudo isso para mim é muito natural e temos uma sinergia muito forte, porque defendemos a riqueza da dupla nacionalidade. Estou muito contente de tentar ser deputada desta região.

estadão.com.br: Apesar da vaga pleiteada pela senhora não representar a África, hoje há um grande problema com ex-colônias africanas da França, que tiveram independência a partir dos anos 70, mas que ainda não resolveram as pendências com a metrópole. Como a senhora vê isso?

Raquel Garrido: Uma parte dos países do norte da África estão muito ligados à França. Há famílias mistas e filhos binacionais. A França está totalmente envolvida com esses países. São irmãos. São muito homogêneos culturalmente. Isso é negado pela direita na França. Eles olham para o norte da Europa e juram que são irmãos dos suecos, dos "ruivos", mas essa não é a verdade. A França é mais próxima do Mediterrâneo e é importante que o representante francês dessa região valorize isso.

Além disso, tem todo o sul e o resto da África, que tem dificuldades semelhantes às da América Latina, sobre soberania e recursos naturais. O problema da África, a miséria e pobreza, acontece também pois os recursos naturais estão em más mãos, privadas e corruptas. O modelo latino- americano da recuperação da soberania em recursos naturais, baseado no Direito Internacional e reformas legais, é um modelo importante para a África.

Sei que há uma organização internacional que está se formando que se chama América do Sul-África (ASA). O Brasil tem uma relação importante com a África e tudo isso é muito positivo.

 

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