Banaras Khan/AFP
Banaras Khan/AFP

Dez anos após ser morto, Bin Laden continua um ícone da jihad

Autor dos atentados de 11 de setembro entendeu o poder da propaganda

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 20h00

Para alguns, ele é a personificação do mal, para outros, um ícone. Dez anos após sua morte, o fundador da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, encarna o sacrifício supremo e permanece uma figura quase indiscutível do jihadismo mundial.

Embora os Estados Unidos tenham jogado ao mar o corpo do autor dos atentados de 11 de setembro, para que seu túmulo não se tornasse um local de peregrinação, Bin Laden continua a ser um exemplo para muitos seguidores do Islã radical.

E isso, principalmente, porque entendeu o poder da propaganda. Com sua longa barba, turbante branco e vestimenta saudita, cultivou a humildade e a sobriedade, antes de optar por uma jaqueta militar, mais chamativa, e um fuzil de assalto no ombro. Uma imagem surpreendente para um homem pouco dado ao combate. 

"Osama Bin Laden elaborou cuidadosamente sua imagem pública para conquistar um público devotado", disse à Agência France-Presse Katherine Zimmerman, pesquisadora do Critical Threats Project do think-tank American Enterprise Institute (AEI)

"Ele adaptou sua imagem para se apresentar como um líder espiritual e militar da jihad", ressaltou.

Ataque emblemático

E teve sucesso, principalmente no recrutamento de combatentes, confirma Colin Clarke, diretor de pesquisas do Soufan Center.

"Embora às vezes tenha sido criticado por seu gosto pela mídia, ele entendeu a importância das grandes plataformas para divulgar a mensagem da Al-Qaeda".

Desde então, o Ocidente gastou bilhões de dólares, mas não conseguiu erradicar o terrorismo. E, sem dúvida, há mais jihadistas no mundo do que há 20 anos.

Mas o legado de Bin Laden não se limita à sua retórica. Ele também foi o precursor da jihad global. Ao lançar aviões contra as Torres Gêmeas de Nova York em 11 de setembro de 2001, em um ataque terrorista que deixou 3 mil mortos, ele desafiou os Estados Unidos, humilhou o Ocidente e deu coragem a gerações de jihadistas, embora tenha tido que se esconder pelo resto da vida. 

Vinte anos após seu "ataque emblemático", os Estados Unidos se preparam para deixar o Afeganistão, incapazes de reivindicar vitória.

Não satisfeito em atingir a principal potência mundial, "ele arrastou os Estados Unidos para uma guerra de desgaste impossível de vencer no Afeganistão, como havia planejado", afirma Colin Clarke.

Bin Laden também entendeu o valor de usar zonas de guerra como campo de treinamento e dedicou sua fortuna ao financiamento de combatentes em vários países ao redor do mundo. 

Desde sua morte, o islamismo ultrarradical sofreu mutações. A Al-Qaeda perdeu sua posição como a principal potência jihadista do mundo, em benefício do grupo Estado Islâmico (EI).

Em vez de unir forças, as duas organizações travam uma guerra ideológica e militar implacável.

Estratégia discutida

Mas Bin Laden morreu antes desse cisma devastador, que ocorreu em 2014. "Ele continua a ser visto com bons olhos pelos líderes do EI", diz Aaron Zelin, fundador do site especializado Jihadology.

"De certa forma, o EI se vê como um dos dignos sucessores de Bin Laden, em contraste com (o egípcio Ayman) al-Zawahiri, que levou a Al-Qaeda pelo caminho errado".

Aos poucos, Bin Laden se tornou um mito. Hoje são poucos os combatentes que o conheceram. Embora seu sacrifício pessoal atraia o respeito de alguns, "para muitos, pertence ao passado", diz Glenn Robinson, autor de A Recent History of Global Jihadism. 

Quanto ao seu legado teórico, continua a ser objeto de debate. Um punhado de oponentes acredita que atacar os Estados Unidos foi contraproducente. Uma "estupidez estratégica", escreveu o teórico da jihad Abu Musab al-Suri.

A Al-Qaeda é hoje uma marca, uma rede, e não uma organização coerente. Suas franquias no Sahel, na Somália ou no Iêmen não atingem o Ocidente, mas estão ancoradas nas questões políticas locais e gozam de grande autonomia diante de uma hierarquia enfraquecida, longe da triunfante estrutura central de Bin Laden. /AFP

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