Imagem Issa Goraieb
Colunista
Issa Goraieb
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Dez anos de divórcio

Há dez anos, em 26 de abril de 2005, o último soldado sírio retirava-se do Líbano, encerrando três décadas de ocupação. Damasco somente se curvou a essa retirada sob o efeito de uma pressão dupla e irresistível. Em primeiro lugar a pressão internacional que teve início em setembro de 2006 sob a forma de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, exigindo a partida de todas as tropas estrangeiras do Líbano e a eleição de um novo presidente libanês.

Issa Goraieb, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2015 | 02h03

O texto vinha apoiar as medidas adotadas pelo ex-premiê Rafic Hariri. Amigo pessoal do então presidente francês, Jacques Chirac, este já vinha trabalhando para pôr fim ao controle sírio sobre o Líbano, principalmente opondo-se à reeleição do presidente libanês Emile Lahoud, aliado dos sírios. Ameaçado por Bashar Assad em pessoa, Hariri cedeu e apoiou uma votação no Parlamento selando a manutenção de Lahoud no cargo. Mas Hariri já estava irremediavelmente condenado. Em 14 de fevereiro de 2005 morreu, com outras 20 pessoas, num atentado a bomba em Beirute. Era tão flagrante a responsabilidade da Síria que esse atentado provocou uma enorme rebelião popular no Líbano, batizada de Revolução dos Cedros.

Algumas semanas depois teve início o repatriamento de 30 mil soldados estacionados desde 1976 em território libanês onde haviam penetrado com o consentimento dos EUA, e mesmo de Israel, sob o pretexto de pôr fim à guerra civil que devastava o país. O divórcio foi assim consumado no caso do problemático casal sírio-libanês. Mas, como se por uma dupla fatalidade, nem um dos dois países encontrou estabilidade, serenidade.

Já amplo, quando do assassinato de Hariri, o fosso entre libaneses nacionalistas e pró-sírios - estes conduzidos pelo Hezbollah - não parou de aumentar ao longo da década passada, conduzindo à deterioração das instituições de Estado. Depois de Hariri inúmeros chefes políticos e jornalistas morreram em atentados.

Única milícia autorizada a conservar seu armamento após o término da guerra civil (a pretexto de uma resistência a Israel) o Hezbollah não cessou de usar seu enorme arsenal para aumentar sua influência e, ao mesmo tempo, a do seu padrinho Irã. Em 2006 provocou uma guerra devastadora com Israel, que resultou em milhares de vítimas civis libanesas e uma enorme destruição, o que não impediu seu dirigente, Hassan Nasrallah, de reivindicar uma vitória divina.

No ano seguinte, os combatentes xiitas passaram a controlar os bairros sunitas de Beirute, ocupando e saqueando a sede da Corrente do Futuro, dirigida pelo filho de Hariri. Contestando a maioria soberana que emergiu das eleições de 2009, o Hezbollah exigiu, e obteve, o direito de veto no âmbito do governo de unidade, o que levou a uma paralisia endêmica do Executivo. Previstas para 2013, as novas eleições não foram realizadas por questões de segurança e por duas vezes o Parlamento libanês votou a própria recondução.

Ao provocar sistematicamente uma falta de quórum na Assembleia, o Hezbollah e seu aliado cristão, o general Michel Aoun, continuam a impedir a eleição de um novo presidente da República, posto vacante desde o mês passado. Mas é principalmente a ingerência armada do Hezbollah na guerra da Síria que divide hoje os libaneses. Em primeiro lugar, isso viola a posição oficial de neutralidade adotada pelo governo do qual a milícia faz parte. Mais grave ainda, atraiu para o país inteiro as represálias dos grupos sunitas que combatem na Síria.

Embora a emancipação não tenha se concluído, duas conquistas importantes foram obtidas. A primeira foi a criação, pela ONU, de um tribunal especial para o Líbano, encarregado do processo envolvendo o assassinato de Rafik Hariri. Esse tribunal internacional já apontou um dedo acusador contra dirigentes do Hezbollah e deverá implicar um canal sírio também, apesar dos assassinatos, suicídios ou mortes acidentais, nos últimos anos, de diversos oficiais do alto escalão sírio implicados nos assuntos libaneses, sendo que a mais recente dessas testemunhas inoportunas é o general Rustom Ghazale.

Apesar da persistência das ingerências sírias, outro motivo de satisfação foi o estabelecimento, pela primeira vez, de relações diplomáticas entre Líbano e Síria. Damasco sempre se recusou a isso, considerando que o Líbano era parte do seu território histórico e não passava de uma criação artificial do colonialismo francês.

Por uma cruel reviravolta da história, é a Síria que, depois de ter por um longo tempo praticado violências no Líbano, é vítima de uma guerra civil que já provocou 200 mil mortes e ameaça até sua existência como Estado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA DO 'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.