Jim Huylebroek/NYT
Jim Huylebroek/NYT

Dezenas de ex-agentes das forças de segurança afegãs morreram ou desapareceram sob governo Taleban

Relatório da Human Rights Watch expõe série de assassinatos e execuções sumárias, considerados amplamente atos de vingança, que têm acontecido por todo o Afeganistão desde a queda do governo de Ashraf Ghani

Sharif Hassan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 10h00

CABUL - Mais de 100 ex-membros de forças de segurança afegãs foram mortos pelo Taleban ou desapareceram nos primeiros dois meses e meio do novo governo dos militantes, de acordo com um novo relatório da ONG Human Rights Watch.

As mortes são parte de uma série de assassinatos e execuções sumárias, considerados amplamente atos de vingança, que têm acontecido por todo o Afeganistão desde a queda do governo de Ashraf Ghani, em agosto. 

Os ataques salientam os perigos que críticos do Taleban, ativistas e integrantes das forças de segurança do governo anterior enfrentam apesar do grupo ter anunciado, quando tomou o poder, uma anistia geral para funcionários do governo anterior e militares.  

Em um relatório publicado nesta terça-feira, 30, a Human Rights Watch detalhou assassinatos e desaparecimentos forçados de 47 integrantes das forças de segurança governo anterior que haviam se rendido ao Taleban ou sido detidos pelo grupo entre 15 de agosto e 31 de outubro, em quatro das 34 províncias do país: Ghazni, Helmand, Kandahar e Kunduz.

O levantamento da ONG indica que o Taleban foi responsável por mortes ou desaparecimentos de pelo menos outros 53 ex-membros de forças de segurança afegãs, nas mesmas províncias. 

“A anistia prometida pela liderança do Taleban não impediu comandantes locais de executar sumariamente ou fazer desaparecer ex-membros das forças de segurança afegãs”, afirmou Patricia Gossman, diretora-associada para Ásia da Human Rights Watch. “A responsabilidade de evitar mais mortes cabe ao Taleban, assim como processar os responsáveis e compensar as famílias das vítimas.” 

Gossman afirmou que os assassinatos evoluíram para um esforço mais “deliberado" de esmagar dissidentes e pessoas que possam representar alguma ameaça ao novo governo e que os líderes taleban estavam “permitindo" as atrocidades. 

O Taleban possui um longo histórico de ter como alvo forças de segurança e autoridades de governo anteriores, assim como ativistas, jornalistas e anciões. Particularmente nos 18 meses que antecederam sua retomada do país, o Taleban colocou em prática uma campanha de assassinatos de jornalistas, funcionários do governo, militares e líderes da sociedade civil, apesar de raramente terem assumido responsabilidade pelas mortes. 

Mas as recentes execuções sumárias e assassinatos levantaram novos temores, porque continuaram a ocorrer mesmo em face às garantias de graduados líderes taleban de que o novo governo não buscaria vingar-se de membros do governo anterior e suas forças militares. 

Acertos de contas e disputas sangrentas têm marcado o Afeganistão nas últimas quatro décadas de conflito, manifestados com frequência em níveis locais e familiares. 

Um porta-voz do Taleban disse ao New York Times que alguns combatentes podem ter tomado a lei em suas próprias mãos para resolver desavenças antigas, mas que os assassinatos e desaparecimentos não são a política do Taleban. O porta-voz, Inamullah Samangani, afirmou que o governo está “investigando seriamente” esses incidentes para identificar os autores e levá-los à Justiça. 

“Estamos plenamente comprometidos com a anistia que anunciamos”, afirmou Samangani em entrevista pelo telefone. “Ainda não possuímos um sistema de segurança instalado, e algumas pessoas estão tirando vantagem desse vácuo, usando indevidamente o nome do Emirado Islâmico e realizando esses assassinatos.” 

“Assassinatos por vingança não são de interesse do nosso governo; são prejudiciais à reputação do Emirado Islâmico neste momento crucial", disse.

Os assassinatos geram preocupações de que os líderes taleban possam ter pouco controle sobre comandantes de menor patente e soldados, que, acredita-se, estariam por trás da maioria dos desaparecimentos forçados e execuções. 

Entre os afegãos cujas mortes foram documentadas pela Human Rights Watch havia um homem chamado Dadullah, que tinha trabalhado por alguns meses como policial na cidade de Kandahar, mas largou o emprego e se mudou para o vilarejo de Spin Boldak, próximo à fronteira com o Paquistão, antes de o Taleban tomar o poder.  

No mês passado, Dadullah retornou para Kandahar. Dois homens, supostamente membros do Taleban, o sequestraram em 23 de outubro, e o corpo dele foi enviado para a residência de sua família em uma ambulância, naquela mesma noite.

“Levamos o corpo para a casa do governador, mas os taleban não nos diziam nada e não permitiram que falássemos com o governador”, afirmou um vizinho à Human Rights Watch.

Desde que tomaram o poder, líderes do governo taleban orientaram membros das antigas forças de segurança a se registrar com autoridades locais e entregar suas armas, em troca de uma carta que lhes garante segurança. 

Mas algumas famílias das vítimas afirmam que o Taleban usou esse registro para deter e assassinar ex-funcionários do governo. Ex-servidores civis de graduados postos do governo, como juízes, que não se deram conta de que a carta de anistia lhes seria exigida, foram espancados e detidos por não obter o documento, segundo o relatório. 

O relatório também afirma que o Taleban realizou buscas para localizar alguns ex-integrantes de forças de segurança, e ameaçaram e emboscaram seus parentes para tentar fazê-los revelar seus esconderijos. 

Muitas das vítimas foram presas quando forças de elite taleban, conhecidas unidades vermelhas, invadiram suas residências no meio da noite, sob o pretexto de apreender armas, de acordo com o relatório. Essas unidades realizaram as operações mais bem-sucedidas do Taleban contra forças da coalizão e do governo anterior nos anos recentes. 

Em setembro, os assassinatos fizeram com que o ministro da Defesa em exercício do Taleban, Mawlawi Muhammad Yaqoub, publicasse uma reprimenda aos seus comandantes. 

“O Emirado Islâmico anunciou uma anistia geral para todos os soldados e pessoas ruins que se levantaram contra nós e nos martirizaram e causaram sofrimento ao nosso povo”, disse ele a combatentes taleban em uma mensagem de voz divulgada pelo governo. “Já que eles estão perdoados, nenhum mujahid tem o direito de romper o compromisso de anistia ou buscar vingança.” 

Mas parece que a mensagem surtiu pouco efeito sobre os combatentes taleban.

Em um assassinato recente, confirmado pelo Times, o ex-agente de inteligência Bahauddin Kunduzi foi encontrado morto, na terça-feira, duas semanas depois de desaparecer na cidade de Kunduz, no norte afegão.

Kunduzi havia entregado sua arma e seu equipamento e recebeu a carta garantindo sua segurança, de acordo com sua família. O Taleban havia até permitido que ele continuasse trabalhando na agência de inteligência.

Certa noite, porém, um grupo taleban chegou ao mercado de alimentos que Kunduzi tinha acabado de abrir para gerar alguma renda, já que o novo governo não conseguia lhe pagar um salário mensal, afirmaram seus parentes. 

“Espancaram ele dentro da loja e o levaram embora”, disse um parente pelo telefone, perdendo a voz enquanto chorava. “Estrangularam ele e depois jogaram seu corpo numa fossa.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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