David Cohen/EFE/EPA
David Cohen/EFE/EPA

Dezenas de pessoas morrem em festival religioso em Israel

Após várias testemunhas relatarem que a polícia não permitiu a dispersão dos religiosos após o início da confusão, o Ministério da Justiça do país disse que vai investigar se houve má conduta policial ligada à tragédia

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 22h20
Atualizado 30 de abril de 2021 | 13h23

TEL AVIV - Pelo menos 44 pessoas morreram e outras 150 ficaram feridas em um tumulto durante uma festa religiosa no Monte Meron, no norte de Israel, segundo autoridades médicas. Cerca de 100 mil pessoas participavam do evento, que acabou se tornando um dos maiores desastres civis da história do país. 

A imprensa israelense informou anteriormente que o tumulto havia começado após uma arquibancada desabar, mas o serviço de resgate disse que a confusão ocorreu porque o local estava superlotado e algumas pessoas escorregaram enquanto desciam uma escada e foram pisoteadas. “Infelizmente, há fatalidades”, disse Avi Marcus, diretor da divisão médica de Hatzala, um serviço voluntário de ambulâncias. 

Após várias testemunhas relatarem que a polícia não permitiu a dispersão dos religiosos após o início da confusão, o Ministério da Justiça do país disse que vai investigar se houve má conduta policial ligada à tragédia.

O Magen David Adom, equivalente israelense da Cruz Vermelha, informou que atendeu durante a noite 150 feridos, seis deles em estado cítico. As circunstâncias exatas da tragédia ainda não foram determinadas.

As imagens publicadas nas redes sociais mostram a procissão com uma multidão compacta e que se aproximava de uma estrutura de metal, onde religiosos estavam de pé ao redor de uma fogueira.

Antes da tragédia, a multidão percorria corredores e salões, dançando e cantando, rezando e acendendo velas e fogueiras, segundo imagens filmadas pela AFP. Homens e mulheres estavam separados e também havia crianças.

O canal de televisão Kan, que exibiu imagens de uma barreira de metal que se partiu com o movimento da multidão, indicou que 18 pessoas estavam em situação "preocupante". 

"A polícia chegou (...) e decidiu fechar a rampa de saída de uma das fogueiras, que estava lotada", relatou à AFP Shmuel, de 18 anos e que testemunhou o ocorrido. "Chegaram mais pessoas, cada vez mais (...) A polícia não permitia a saída e começaram a se apertar uns contra os outros, e depois a se esmagar".

"A polícia não reabriu (a barreira) até que se rompeu e toda a multidão explodiu para os lados. Dezenas de pessoas morreram esmagadas, uma catástrofe", completou Shmuel.

Amit Sofer, membro do conselho regional de Merom Hagalil, afirmou que as autoridades pensaram inicialmente que "um palco havia desabado".

O comandante da polícia da região norte, Shimon Lavi, disse à imprensa que "assume a responsabilidade" pelo desastre.

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu afirmou que a tragédia é uma das catástrofes mais graves da história do país. "A catástrofe do Monte Meron é uma das mais graves a atingir o Estado de Israel", afirmou em uma mensagem no Twitter o chefe de Governo, que visitou nesta sexta-feira, 30, o local e decretou um dia de luto nacional no domingo.

O Exército israelense enviou médicos e equipes de busca e resgate juntamente com helicópteros para local. O incidente ocorreu tarde da noite e houve relatos conflitantes.

Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram um grande número de judeus ultraortodoxos agrupados em espaços apertados. Eles estavam aos pés do Monte Meron para celebrar Lag Ba’Omer, um feriado judaico em homenagem ao rabino Shimon bar Yochai, que viveu no século 2 e está enterrado lá.

As autoridades permitiram a presença de 10.000 pessoas na área do túmulo, mas, segundo os organizadores, em todo o país foram fretados mais de 650 ônibus, o que representa pelo menos 30.000 pessoas. A imprensa local calculou o fluxo em 100.000 pessoas, mas o número não foi confirmado pelas autoridades.

Em 2019, um ano antes da pandemia que provocou o cancelamento da peregrinação em 2020, os organizadores calcularam que 250.000 compareceram ao local.  

Essa foi a primeira grande reunião religiosa desse tipo a ser realizada legalmente desde que Israel suspendeu quase todas as restrições relacionadas à pandemia do novo coronavírus

O país viu os casos de covid despencarem desde o lançamento de uma das campanhas de vacinação mais bem-sucedidas do mundo no ano passado. Mas as autoridades de saúde disseram ser contra a realização de uma reunião tão grande. Quando as comemorações começaram, porém, o ministro da Segurança Pública, Amir Ohana, o chefe de polícia, Yaakov Shabtai, e outras autoridades acabaram participando do evento.

“Eu tinha acabado de me sentar para comer quando ouvi os gritos. Corremos para ajudar e então vimos os corpos. No início eram cerca de 10. Agora, há muitos mais”, disse ao Haaretz uma testemunha que se identificou como Avi e ajudou a socorrer os feridos.

Outra testemunha descreveu que um grande número de pessoas foi empurrado para o mesmo canto conforme o tumulto se iniciava. “Eu senti que estava prestes a morrer”, disse.

Testemunhas disseram que perceberam que pessoas acabaram asfixiadas ou pisoteadas. “Achamos que talvez houvesse um alerta (de bomba) sobre um pacote suspeito", disse uma delas à agência Reuters.

“Ninguém imaginava que isso pudesse acontecer aqui. Alegria se tornou luto, uma grande luz se tornou uma escuridão profunda”, afirmou um peregrino que se identificou como Yitzhak à emissora local Canal 12.

A festa no Monte Meron foi proibida no ano passado por causa das restrições impostas pelas autoridades para evitar a propagação do coronavírus.

A polícia informou ao Haaretz que iniciou uma investigação sobre o incidente. Algumas testemunhas disseram ao jornal isralense que policiais acabaram aumentando o problema ao não permitir que as pessoas se dispersassem logo após o início do tumulto, o que a corporação nega.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, desejou ao povo israelense "força e coragem para superar estos momentos difíceis". 

União Europeia e França expressaram de modo separado condolências às famílias das vítimas e à população, desejando "uma pronta recuperação aos feridos". A Alemanha se declarou "profundamente comovida".

"Terríveis cenas na festa de Lag Baomer em Israel", tuitou o primeiro-ministro britânico Boris Johnson.

Funerais estão previstos para esta sexta-feira em Jerusalém e Tel Aviv. / REUTERS, AP e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.