Dezoito ministros renunciam na Somália

Dezoito ministros e vice-ministros do Governo interino da Somália renunciaram nesta quinta-feira a seus cargos para "facilitar as negociações de paz" com as Cortes Islâmicas, cujas milícias controlam a capital Mogadiscio e quase todo o sul do país."Renunciamos porque fracassamos em nossa missão e não ganhamos a confiança do povo somali", disse o ministro de Serviços Públicos, Osman Hassan Alí, um dos que deixou o gabinete.Ao mesmo tempo, os membros da Assembléia Nacional anunciaram que uma moção de censura do primeiro-ministro, Alí Mohammed Ghedi, foi entregue ao presidente da Câmara e será discutida no próximo sábado em Baidoa, sede provisória do Executivo.Osman apoiou a iniciativa dos legisladores e afirmou estar "desiludido" com o primeiro-ministro. "Não entendemos que objetivos possa ter para permitir que tropas etíopes entrem na Somália para atacar Mogadiscio", disse.Fontes governamentais de Baidoa disseram que no próximo sábado o Parlamento analisará a moção de censura, e possivelmente uma acusação de traição contra o primeiro-ministro.Não se sabe qual será a posição adotada pelo presidente Abdullahi Yousef Ahmed. Fontes próximas ao governante disseram que Ahmed apóia a postura dos ministros que renunciaram, assim como a moção de desconfiança que se prepara no Parlamento.Tropas etíopesNa semana passada um contingente de tropas etíopes entrou na Somália com o objetivo de apoiar o Governo de transição, segundo afirmaram testemunhas de Baidoa. As autoridades, no entanto, negam o fato, e afirmam se tratar apenas de uniformes etíopes recebidos para vestir suas tropas.Fontes próximas ao Governo assinalaram que esta renúncia coletiva e a moção de censura buscam preparar o terreno para as conversas de paz entre o Governo e as Cortes Islâmicas, que ocorrerão em 2 de agosto no Sudão. Analistas afirmam que esta é a única alternativa para evitar um maior derramamento de sangue na Somália.O analista político Dahir Mohamoud disse que a chave desta crise é saber o que ocorrerá com as tropas etíopes. "O povo não vai confiar em uma pessoa que seja apoiada pela Etiópia", acrescentou Mohamoud. As duas nações se enfrentaram em uma guerra pela região de Ogadén, entre 1977 e 1978, e até hoje os etíopes não são bem-vistos na Somália.Segundo o analista, uma saída para resolver a crise seria que as Cortes Islâmicas fossem convidadas pelo presidente Yousef Ahemd para nomear um novo primeiro-ministro. "As Cortes são poderosas e têm direito de exercer o poder", acrescentou. Governo de transição O Governo de transição vem observando impotente as milícias da UCI imporem seu controle em quase todo o sul do país, após derrotar e expulsar de Mogadiscio as forças de uma aliança de "senhores da guerra".O Governo tomou posse em 7 de janeiro de 2005, no Quênia, pois as condições de segurança na Somália impediam a chegada das autoridades.A mudança para a Somália começou meses depois, embora a sede do Governo tenha sido fixada provisoriamente em Baidoa (245 quilômetros ao noroeste de Mogadiscio.Desde então, o Governo de transição não conseguiu impor sua autoridade no país, e recentemente viu sua área de influência diminuir, devido ao avanço dos milicianos das Cortes Islâmicas.

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