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Moisés Naím
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Diagnosticando Obama

Nos Estados Unidos, consensos políticos estão em risco de extinção. Não há acordo sobre quase nada, exceto de que a culpa é de Barack Obama. O presidente é visto como o responsável pelo desemprego, pelos salários que não sobem, pela grande desigualdade econômica ou pelo fato de que os Vladimir Putin e Bashar Assad do mundo andam muito atrevidos, já que descobriram que podem fazer qualquer coisa sem que os EUA lhes deem uma lição e lhes ensinem - e ao resto do mundo - que não se deve brincar com uma superpotência.

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2014 | 05h45

A lista de culpas de Obama é ampla e variada. O presidente chegou até a conseguir algo que parecia impossível: que democratas e republicanos concordassem que ele é o responsável pelos resultados da última eleição para o Congresso.

Os republicanos contabilizaram uma vitória nunca vista desde 1931. Alguns líderes do Partido Democrata e muitos dos candidatos derrotados disseram publicamente que a Casa Branca é culpada pela derrota eleitoral que sofreram. Os republicanos não podem estar mais de acordo.

O que ocorreu com Obama? Como um líder que chegou à presidência despertando tantas esperanças e com tanto apoio dentro e fora do país seja hoje percebido de modo tão negativo? De acordo com pesquisas de boca de urna, 60% dos que votaram na semana passada nos Estados Unidos nutrem sentimentos negativos em relação ao seu governo.

As razões para explicar porque Barack Obama não teve o desempenho que se esperava dele são tão diversas quanto as críticas feitas à sua gestão. As explicações para as falhas e limitações de Obama mais comumente oferecidas por críticos e analistas podem ser agrupadas em quatro categorias:

Inexperiência. “Sua meteórica carreira não lhe deu tempo para se preparar para a presidência. Obama passou de jovem líder comunitário nos bairros pobres de Chicago à política local e, de lá, rapidamente, ao Senado dos Estados Unidos, para apenas três anos depois ser candidato à presidência e chegar à Casa Branca.”

Seus críticos o acusam de ser mau político, não saber criar alianças ou alcançar os necessários compromissos com seus opositores. Acusam-no, também de ser mau gestor e administrar a presidência de maneira perniciosamente centralizada.

Personalidade. “Obama é um intelectual, um introvertido, tem uma personalidade distante que dificulta uma relação eficaz com seus colaboradores, com os políticos do seu partido e outros líderes internacionais com quem deve trabalhar - e também com seus opositores, que ele menospreza.” Uma versão radical dessa crítica é que Obama sofre de problemas psicológicos que o desmotivam.

Ideologia. “O presidente é um ideólogo empenhado em impor ao país um programa de tendência socialista que se choca com as preferências da maioria da população. Obama é estadista, isolacionista e dispendioso. Prefere o setor público em detrimento do setor privado e suas políticas tendem a ampliar o tamanho do Estado. Suas ambições internacionais são tímidas, reticentes. Obama sente que seu país apenas deve intervir em conflitos internacionais que estejam direta e claramente relacionados com interesses americanos.” Além disso, dizem seus críticos, “o gasto público dos Estados Unidos disparou sob sua presidência”.

Antiamericano. “Barack Obama realmente nasceu no Quênia, é secretamente muçulmano e sua ascensão à Casa Branca é parte de uma bem-sucedida conspiração dos inimigos para prejudicar as mais altas esferas do poder governamental.” Essa variante pode parecer extravagante, exagerada e até delirante, mas é surpreendente como ainda continua fortemente arraigada nos círculos mais radicais da oposição. A partir dessa perspectiva, erros, defeitos, omissões e limitações da gestão de Obama são propositais.

Não compartilho de nenhuma dessas críticas. Embora seja óbvio que o presidente Obama e sua equipe cometeram erros, sustento que muitas das críticas honestas (que não obedecem a interesses partidários, econômicos, ideológicos ou a reações irracionais) têm base em hipóteses que exageram o poder do presidente hoje, seja ele quem for.

Existem evidências de sobra de que atualmente o presidente dos EUA e seu governo têm restrições jamais vistas. Acredito também que algo semelhante vem ocorrendo com os demais governos do mundo. O problema não é Obama. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Moisés Naím é ex-diretor executivo do Banco Mundial e membro do Carnegie Endowment for International Peace

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