Análise: Anúncio de que Trump está com covid encontra terreno de desconfiança

Análise: Anúncio de que Trump está com covid encontra terreno de desconfiança

Americanos ouviram tantas coisas contraditórias nos últimos quatro anos que se perguntaram se notícia sobre saúde do presidente era verdade

Sarah Lyall e Reid J. Epstein, The New York Times

03 de outubro de 2020 | 11h23

Era uma farsa? Era uma mentira? O presidente estava mais doente do que alegou — ou não estava nada doente? (O que significa dizer "sintomas leves", e como isso é diferente de "moderados"?) Havia alguma forma de que essa notícia alarmante fosse um truque ultra-cínico?

Ao acordar na sexta-feira 2, com a impressionante notícia de que o presidente dos Estados Unidos havia testado positivo para a covid-19 depois de meses minimizando o vírus, alguns americanos tiveram uma reação semelhante: talvez isso não seja verdade. "Eu não acredito", disse Anthony Collier, um caminhoneiro de Atlanta. "É como se ele estivesse tentando ganhar simpatia".

Não há evidências, é claro, que apoiem a opinião de que Trump e sua mulher, Melania, não estejam doentes. Quando chegaram as atualizações sobre o quadro do presidente, seguidas da notícia de que ele seria internado, a boataria passou de um ceticismo de que o presidente estivesse doente a dúvidas de que a Casa Branca estivesse sendo franca sobre seu estado de saúde.

Nas redes sociais, em entrevistas, em conversas, as perguntas afluíam o dia inteiro, vindas de pessoas que ouviram tantas coisas contraditórias nos últimos quatro anos — uma onda de realidades conflitantes — que não sabiam mais o que era verdade.

"Não é surpresa que ninguém acredite nele. Chegamos a um ponto em que ninguém acredita em nada", disse Armando Iannucci, satirista político e diretor que criou o programa de TV Veep. "O vírus que ele está espalhando é o vírus de lançar dúvidas sobre qualquer informação factual. Lançar dúvidas sobre a verdade, lançar dúvidas sobre as notícias. Apenas lançar dúvidas, rotular como mentira, dizer que algo não existe até que exista".

A situação não melhorou com as declarações confusas e incompletas que vieram da Casa Branca no início da sexta-feira. Tanto Mark Meadows, chefe de gabinete de Trump, quanto Kayleigh McEnany, secretária de imprensa da Casa Branca, se recusaram a responder à pergunta que tem perseguido cada administração desde a era Nixon: o que o presidente sabia, e quando ele sabia? Quando ele descobriu, por exemplo, que Hope Hicks, a assistente com quem esteve em estreito contato durante toda a semana, havia testado positivo para a covid-19?

"Não vou entrar em uma linha do tempo exata", disse McEnany à TV Fox News.

Enquanto a bolsa de valores se agitava, o país se inquietava e as teorias se espalhavam, o dr. Scott Atlas, um dos principais conselheiros sobre coronavírus da Casa Branca, declarou à Fox que Trump "faria uma recuperação completa, total e rápida".

Falando de um homem de 74 anos, cuja idade e peso o tornam especialmente vulnerável às complicações da covid-19, que recentemente pareceu ter dificuldades para descer uma rampa e levantar um copo de água na boca, Atlas acrescentou que "ele nunca tinha visto ninguém com mais energia e mais vigor, em nenhuma idade".

Essa observação fez com que o âncora da Fox Chris Wallace, que moderou o caótico debate presidencial no início desta semana, interrompesse a fala de Atlas com uma advertência inesperada: não prestem atenção ao homem em frente à câmera.

"Pessoal", disse Wallace, sua voz embargada com exasperação. "Vou dizer algo, e só estou tentando falar a verdade. O dr. Scott Atlas não é epidemiologista, não é especialista em doenças infecciosas. Há uma série de pessoas no topo da força-tarefa presidencial sobre coronavírus que têm tido sérias preocupações sobre Scott Atlas e sua boa fé científica".

Wallace afirmou que, ainda que a Casa Branca e seus conselheiros políticos possam "tentar minimizar" a covid-19 por razões políticas, os telespectadores deveriam se lembrar que o coronavírus é imprevisível e Atlas não tem ideia do que vai acontecer. "Ele não pode saber, porque o presidente está nos estágios iniciais da doença", disse Wallace.

De fato, várias horas depois da entrevista com Atlas, a Casa Branca anunciou que Trump seria levado para o hospital Walter Reed. No rescaldo imediato da divulgação sobre o presidente, mesmo autoridades geralmente sóbrias se tornaram teóricos da conspiração.

O deputado Don Beyer, democrata da Virgínia, disse que não duvidava da condição de saúde do presidente. Mas então acrescentou: "Eu não ficaria surpreso ao saber que essa foi uma manobra política para tirar a atenção das declarações de impostos e da supremacia branca".

James Zogby, presidente do Instituto Árabe-Americano em Washington, se viu intrigado por sua própria montanha-russa de emoções. Como muitos democratas ainda abalados com as eleições de 2016, sua mente foi diretamente questionada sobre a vantagem política que Trump ganharia ao adoecer.

"Em uma situação normal, diríamos: 'Meu Deus, o presidente está doente'", disse ele. "Mas o que estamos fazendo são mais perguntas sobre se é verdade, se ele está armando um jogo e como ele está fazendo isso. É bastante angustiante".

Para os partidários de Trump que passaram os últimos sete meses menosprezando a gravidade do vírus, argumentando que o país deveria reabrir e reclamando das máscaras, a notícia de sexta-feira sobre o diagnóstico positivo foi rapidamente seguida por um novo sentimento: ultraje de que qualquer um possa questionar a palavra do presidente. 

"Acho que as pessoas acreditam nele de olhos fechados", disse o ex-deputado Sean Duffy, do Wisconsin, que foi um dos oradores no comício de Trump no mês passado, em Mosinee. "O que quer que você queira dizer sobre o presidente, ele é um cara muito aberto e franco".

Juliana Bergeron, membro do Comitê Nacional Republicano de New Hampshire, acrescentou: "Achei que todos iriam acreditar nisso. Ele mesmo tuitou, certo?" /THE NEW YORK TIMES

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