Dialogar ou derrotar o regime?

Em menos de um ano, a oposição cubana perdeu dois de seus mais importantes líderes. No dia 14 de outubro, desaparecia Laura Pollán, principal coordenadora das Damas de Branco, e figura fundamental na libertação dos prisioneiros da Primavera Negra. Há uma semana, morreu - em consequência de um acidente que ainda não está de todo esclarecido - Oswaldo Payá, fundador do Movimento Cristão para a Libertação.

YOANI SÁNCHEZ, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h05

Estes ativistas eram merecedores de grande reconhecimento nacional e internacional e sua ausência física se dá em um momento de busca de novos horizontes para os dissidentes. Daí a necessidade de analisar o cenário no qual estas mortes ocorreram e seu efeito no futuro imediato.

Não há a menor dúvida de que a oposição cubana na ilha se distingue por seu caráter pacífico. Preferiu fundamentar suas ações em programas políticos, em documentos nos quais exige o respeito pelos direitos humanos, em manifestações nas ruas, nas frases pintadas nas fachadas ou nas reuniões a portas fechadas. Comporta-se e manifesta-se de uma maneira muito mais democrática do que o governo instalado na Praça da Revoluções.

Nas fileiras da dissidência existe uma grande variedade de opiniões a respeito dos possíveis caminhos e destinos da transição. Embora algumas destas rotas sejam divergentes, há também numerosos pontos de confluência. A urgente necessidade de mudanças políticas, sociais e econômicas é o fio condutor que percorre toda a sociedade civil. Os apelos para que se ponha um fim à repressão aos inconformistas, às prisões arbitrárias e às condenações judiciais por motivos políticos fazem parte dessa agenda comum. Além disso, todos concordam em reconhecer o esgotamento de soluções que o governo de Raúl Castro está mostrando diante dos graves problemas nacionais.

Tendências. Embora tenham sido tentados vários esquemas para classificar a oposição cubana, a maioria dos estudos teve como foco as tendências políticas dos grupos que a constituem. Alguns analistas estabeleceram divisões entre opositores históricos e outros atores muito mais jovens. Mas, na prática, não é nem a coloração política nem a idade que diferencia - mais marcadamente - as várias associações dissidentes.

Um ponto-chave é a legitimidade concedida ao governo de Raúl Castro em suas agendas e propostas de mudança. Uma parte afirma que um possível diálogo com as autoridades chegaria a um caminho não violento rumo à transição. A esta linha aderem figuras destacadas como José Daniel Ferrer, presidente da União Patriótica de Cuba, que considera que "o diálogo é possível, mas de uma posição de força da sociedade civil".

Outros, por sua vez, desclassificam qualquer tentativa de pacto com o regime, com base no fato de que ele não foi eleito pelo povo em um processo eleitoral livre e direto. Eles consideram o Partido Comunista um sequestrador com o qual não se deve - em hipótese nenhuma - negociar. Pactuar ou derrubar parecem ser os dois antípodas ao redor dos quais são definidas as atuais forças opositoras.

Oxigênio. O embargo americano também constitui um divisor de águas que define posições e plataformas. Dentro da ilha muitos dissidentes afirmam que é preciso preservar as restrições econômicas para asfixiar materialmente o governo. Eles asseguram que permitir um comércio fluido com os Estados Unidos ou autorizar as viagens de americanos a Cuba seria como oxigênio fresco que permitiria ao presidente ganhar forças.

José Luís García (Antúnez), líder da oposição do centro da ilha, é um dos principais defensores desta posição.

Chegar até o povo é o grande desafio. Nega-se à dissidência cubana a possibilidade de acesso aos meios de comunicação de massa. Isso limita significativamente a capacidade de divulgar suas propostas e programas políticos.

Em vez de permitir-lhes ao menos um minuto na frente de um microfone, o governo utiliza a televisão e a imprensa oficiais para acusá-los de "assalariados do império" ou "grupúsculos sem importância". Objetos frequentes destas lapidações midiáticas foram o ativista dos direitos humanos Elizardo Sánchez, a líder da oposição Martha Beatriz Roque, o laico católico Dagoberto Valdés e o próprio grupo das Damas de Branco.

De diferentes perspectivas, esses atores sociais poderiam ser fundamentais nos próximos anos, juntamente com vários projetos de promoção sociocultural, como o dirigido por Antonio Rodiles, que atrai até mesmo pessoas envolvidas com instituições estatais.

Acompanhar essas ações com um constante trabalho de informação torna-se vital, dada a importância que vão ganhando os jornalistas independentes e os blogueiros alternativos.

No cenário atual, a morte de Oswaldo Payá abre uma interrogação sobre o futuro do Movimento Cristão para a Libertação, que conta com inúmeros membros em toda a ilha.

Se esta força política conseguir sobreviver à morte do seu fundador, mostrará também a maturidade de toda a oposição cubana. Por outro lado, Raúl Castro se apoderou de alguns pontos que faziam parte da agenda de seus adversários políticos.

A abertura para a pequena empresa privada, a possibilidade de comprar e vender casas ou automóveis e a entrega em usufruto de terras ociosas são algumas das medidas que o governo adotou nos últimos quatro anos. Esse panorama obriga os grupos da oposição a estabelecer novos horizontes e a redefinir suas propostas.

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