Diálogo com Irã à beira do abismo

Potências mundiais insistem que exigências sejam atendidas, mas oferecem pouco a Teerã

Gareth Evans, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h04

TEERÃ - O problema da política do risco calculado, como a adotada em relação ao programa nuclear do Irã, está no fato de que uma queda no abismo é muito fácil. Nas duas primeiras rodadas das recentes conversações entre o Irã e o P5+1 (os cinco membros do Conselho de Segurança Permanente da ONU, mais a Alemanha), realizadas em Istambul, em abril, e em Bagdá, em maio, ambas as partes pelo menos ainda tropeçavam à beira do precipício. Agora, depois da terceira rodada, em Moscou, eles estão se agarrando quase que com as unhas.

Nenhum dos lados estava disposto ao compromisso em nenhuma das questões fundamentais. Eles concordaram - muito pouco, aliás - com a realização de uma reunião de especialistas no início de julho, mas ninguém espera que ela produza algum avanço. Até lá, estarão vigorando novas sanções europeias e americanas às exportações de petróleo do Irã.

Enquanto isso, o Congresso dos EUA pressiona por outras mais e personalidades influentes desse país afirmam que o jogo das negociações acabou. Os rumores sobre a eventualidade de uma guerra continuam insistentes em Israel, enquanto, no clima político extremamente carregado deste ano eleitoral nos EUA, aumenta a ansiedade pela possibilidade de a escalada escapar do controle.

Embora as posições de ambas as partes nas negociações não sejam tão discrepantes como no passado, até o momento, suas reivindicações básicas revelaram-se irreconciliáveis.

Atualmente, as seis potências mundiais insistem em três coisas. Em primeiro lugar, o Irã deve parar o enriquecimento de urânio a 20% (nível exigido para os reatores de pesquisa, mas já muito próximo do urânio para a fabricação de armas). Em segundo lugar, o Irã precisa trocar seu atual estoque de urânio enriquecido a 20% por aquele utilizado como combustível que só pode ser usado no reator de pesquisa de Teerã. A exigência final é que o Irã feche sua instalação de enriquecimento subterrânea em Fordo, perto de Qom.

Em troca de tudo isso, não serão impostas novas sanções e o acesso a peças de reserva de aviões será facilitado. Mas o Irã quer mais: no mínimo, o reconhecimento formal do seu "direito inalienável de enriquecer" urânio, do direito de manter funcionando suas s instalações e a retirada de grande parte das inúmeras sanções que lhe foram impostas (por se recusar a cumprir as resoluções do Conselho de Segurança, que exige a suspensão de toda atividade de enriquecimento).

Há vários subtextos implícitos no atual impasse, analisado em um relatório do International Crisis Group divulgado este mês. Certamente, o P5+1 tem a percepção de que o Irã está em graves dificuldades em virtude das sanções, além de profundamente temeroso de um iminente ataque aéreo israelense.

Eleições. Mas, no contexto da desordem econômica que impera na Europa e do esforço do presidente Barack Obama para conseguir se reeleger, o Irã vê o Ocidente igualmente desesperado para evitar um conflito que provocaria um aumento vertiginoso dos preços do petróleo. Seus líderes creem que seu poder de barganha se fortaleceu com as novas instalações e estoques do país e, embora afetado pelas sanções, seu orgulho não lhe permite ceder diante deles.

A realidade é que cada lado exagera seus pontos fortes e também os pontos fracos do outro lado. Particularmente, as potências globais subestimam a capacidade de recuperação do Irã e Teerã superestima a capacidade dos EUA, em um ano eleitoral, de conter uma possível aventura militar de Israel. Será necessária alguma modificação nas respectivas posições.

Sem dúvida, o Irã - com sua longa história de segredos e dissimulação - merece a intensa hostilidade e a desconfiança que seu programa nuclear continua provocando. Mas a opinião comum dos especialistas das áreas de segurança e inteligência do mundo todo é que, embora o Irã talvez queira a capacidade para construir uma arma nuclear, está longe de construir uma arma atômica que possa ser utilizada e não tomou nenhuma decisão para tanto. Na realidade, pesando custos e benefícios, os líderes iranianos têm inúmeras boas razões para não cruzar a linha do perigo.

Mas essas avaliações se revelarão ingênuas a não ser que o Irã pelo menos suspenda o enriquecimento a 20%, torne impossível a utilização do seu estoque de urânio a esse nível para aplicações militares e atenda às exigências em relação a Fordo, abrindo as instalações para um monitoramento de fato.

Em troca, o P5+1 deverá estar preparado para modificar de modo significativo suas atuais exigências fundamentais, independentemente das dificuldades políticas que isso acarretar, principalmente para Obama neste ano eleitoral. Agora, as potências globais deveriam reconhecer abertamente que - gostando ou não, quer seja uma boa política quer não - a posição legalmente correta no âmbito do Tratado de Não Proliferação Nuclear é que o Irã tem de fato o direito de enriquecer urânio para uso civil e, o que é ainda mais importante, o P5+1 deverá estar disposto não apenas a repudiar novas sanções, mas também a retirar as sanções atuais, enquanto o Irã adotar as medidas razoáveis que se exigem dele.

Isso não significa um acordo com o diabo, mas o reconhecimento de que a situação atual é insustentável; um confronto altamente inflamável está mais próximo do que possamos imaginar; e a catástrofe só será evitada por uma diplomacia serena e equilibrada, infelizmente do tipo não encontrado até o momento. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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