Diálogo de paz com Farc enfrenta contratempos

Depois de acordo que permitiu superar divergências, visita de Capriles a Santos complica mediação

MARCO PALACIOS , EL PAÍS, É PROFESSOR DE EL COLEGIO DE MÉXICO. SEU ÚLTIMO LIVRO, VIOLÊNCIA PÚBLICA NA COLÔMBIA DE 1958 A 2010, FOI PUBLICADO PELO FONDO DE CULTURA ECONÓMICA , O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h04

Ao assumir a presidência da Colômbia, Juan Manuel Santos declarou que a porta do diálogo com a guerrilha não estava fechada à chave. Três dias depois, o ministro que mais veneno colocou nas relações com a Venezuela chavista, especialmente com seu líder máximo, Hugo Chávez, reuniu-se com este em San Pedro Alejandrino, última residência de Simón Bolívar.

A reconciliação teve como resultado a solução de assuntos comerciais, diplomáticos e financeiros entre os dois países. Facilitou a retomada das relações com o Equador, deterioradas em razão do bombardeio contra um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) no lado equatoriano da fronteira e rompeu o relativo isolamento da Colômbia na América do Sul. O problema da guerrilha também foi debatido e, mais uma vez, Chávez voltou a atuar como mediador com as Farc de um modo mais prático. A partir daí, teve início o atual processo de negociações em Havana, primeiro em segredo e agora mais público.

Esta mudança radical em relação à estratégia política de Álvaro Uribe, antecessor de Santos, confirmou o princípio com base no qual o poder ou a autoridade realmente não são passíveis de delegação. Uribe não deveria governar mais por meio de terceiros. Além do que, Santos não era o herdeiro. O papel havia sido outorgado a outro ministro de Uribe: Andrés Felipe Arias, que não conseguiu respaldo suficiente para se candidatar à presidência e há meses aguarda atrás das grades ser julgado num processo de suposta malversação de fundos públicos.

Ao sair da sombra de Uribe, Santos compreendeu o jogo que viabiliza as presidências de oito anos e, em 20 de agosto de 2010, em Santa Marta, lançou sua campanha de reeleição. Por isso, desde o anúncio feito pelo presidente sobre as conversações com as Farc, o assunto tornou-se o principal tema de debate.

O problema é a complexidade do modelo adotado para as conversações. Embora ele leve em conta a permanente interação de fatores internacionais e de política doméstica colombiana, não dá a atenção necessária a situações inesperadas como as que levaram a um atual incidente envolvendo as relações entre Colômbia e Venezuela em razão de uma reunião entre Santos e o candidato presidencial da oposição venezuelana Henrique Capriles, que foi a Bogotá pedir apoio para suas queixas de fraude eleitoral e, portanto, de ilegitimidade e ilegalidade do mandato de Nicolás Maduro.

Embora o mais provável é que tal incidente seja solucionado pelas vias diplomáticas, as reações de políticos e analistas colombianos atingiram um nível inusitado de confronto verbal, que já é alto. Trata-se de um assunto secundário em qualquer estratégia de paz na Colômbia, mas não na disputa venezuelana. Por mais precisas que sejam as regras estipuladas em Havana e prudente o seu cumprimento, a complicada relação entre Colômbia e Venezuela é muito importante.

Não deixa de ser significativo o fato de, entre o anúncio do dia 26, de um acordo obtido em Havana sobre o ponto número um da agenda - o agrário, considerado decisivo - e a chegada de Capriles a Bogotá, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, tenha visitado Santos e reiterado o apoio do governo americano às conversações de paz com as Farc e "no campo de batalha" com a guerrilha. E não é demais lembrar que os EUA são um dos pouquíssimos países, talvez o único, que ainda não reconheceram a vitória de Maduro.

Apesar da volatilidade das conversações de Havana, observa-se uma tendência fundamental que é o avanço delas. Sobre o princípio de que nada é estipulado até que se chegue a um acordo total, as conversações progridem.

Um acordo agrário envolvendo o primeiro ponto da agenda foi um passo adiante. Mas o que vem depois não é fácil. A questão da justiça e da paz que está na base do tipo de participação política das Farc, uma vez desmobilizadas e de volta à vida civil, é tema de discussão e espera-se que também se resolva por meio de um acordo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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