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Diálogo ecumênico é saída para o Islã

Apoio de rei saudita ao congresso inter-religioso da ONU deve ser visto como gesto corajoso

Tony Blair, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

A decisão do Rei Abdullah da Arábia Saudita de realizar um congresso ecumênico sob o patrocínio da ONU é ousada, corajosa e de amplo alcance. Para muitos, principalmente no Ocidente, sua iniciativa pode não parecer nova. Mas, na realidade, é um importante passo na longa caminhada que poderá levar a um relacionamento do Islã com as outras religiões sem confrontos e desconfianças, a uma coexistência pacífica.O rei Abdullah não é apenas o governante da Arábia Saudita. É o guardião das duas Mesquitas Sagradas, os locais religiosos de Meca e Medina que, com a Al-Aqsa, em Jerusalém, constituem três dos principais lugares sagrados do Islã.Ele é também o chefe de uma nação cuja modernização, segundo os críticos, está ocorrendo muito lentamente, com graves conseqüências para o restante do mundo. Por isso, a decisão do rei de estender a mão da amizade e do respeito mútuo a outras religiões, dando o início ao congresso ecumênico, na quarta-feira, tem enormes implicações - como indicam as críticas à sua iniciativa em algumas partes do mundo islâmico. No Islã, existem hoje duas narrativas concorrentes. Não se trata de uma série de diferentes pontos ou questões problemáticas que exigem a desvinculação do foco e da ação. Há essencialmente uma única luta, com dois lados.Num deles estão os que declaram alto e bom som que o Islã se equivocou porque sua liderança foi preparada para colaborar com o Ocidente, ou porque o Ocidente procura impor seus valores às sociedades muçulmanas.Segundo esta narrativa, o Islã está envolvido em um conflito fundamental com os infiéis, no qual não poderá haver reconciliação. Os que a procuram, traem o Islã. O confronto, ou pelo menos a segregação, é inevitável. Em vez de buscar a coexistência, em vez de "diluir" a pureza do Islã tentando aprender a respeitar os que têm uma fé diferente, os muçulmanos deveriam restabelecer um califado mítico, um Estado islâmico no qual a governança fosse pautada por uma obediência rígida à lei islâmica e a práticas instituídas séculos atrás, segundo a interpretação dos clérigos da linha dura dos dias atuais.Embora seja pequeno o número de fiéis que seguem esta narrativa como caminho para o radicalismo ou a violência, há muitos outros que assumem sua premissa essencial segundo a qual somos duas culturas e civilizações distintas e opostas entre si.Eles se sentem encorajados nesta crença porque esta narrativa apela para o sentimento mais difundido de que o Islã é tratado de modo desrespeitoso pelo Ocidente, de que no tratamento da questão palestina são aplicados dois pesos e duas medidas, e de que as intervenções militares no Afeganistão e no Iraque tiveram motivações religiosas. Seu apelo às vezes é equivocadamente intensificado pela sensação de que o Ocidente perdeu o contato com valores morais básicos.O segundo grupo não deseja imitar a sociedade ocidental. Seus defensores compartilham preocupações de natureza moral. Mas também querem formular uma narrativa moderna sobre o Islã, e já começaram a fazê-lo. Eles sabem que o mundo moderno não poderá funcionar se pessoas de diferentes credos não aprenderem a se entender e a respeitar-se reciprocamente. Essa narrativa é totalmente fundamentada no Islã, mas procura eliminar a visão exclusivista de religião - que não é própria do Islã - como um meio de fechar a porta aos que seguem um credo diferente.Os que propõem essa narrativa moderna querem usar a riqueza do Oriente Médio para financiar uma política e uma cultura que se coadunem com o século 21. Eles procuram inspirar-se na crença básica do Islã, na educação, a fim de garantir que seu povo possa ser um elemento marcante do mundo do século 21, mas não distinto dele. E apontam para mil anos de história islâmica, da Espanha à China, para ilustrar a coexistência muçulmana e a aceitação de outras confissões religiosas.A Arábia Saudita é vista por muitos como a pátria dos que abraçam a primeira narrativa. O rei Abdullah está mostrando que seu país pode e deve ser parte da segunda, a da coexistência pacífica.Há aqui importante lições para a política do Ocidente, principalmente com a chegada de um novo presidente americano. Os que defendem o olhar para fora e uma visão pacífica do Islã precisam do nosso apoio. Não podemos negligenciar a importância das medidas militares e de segurança - ao contrário, elas são cruciais.Trata-se de um conflito de idéias, de corações e mentes, e de armas. Precisamos persuadir, precisamos nos dar conta de que as raízes da narrativa alternativa, na qual o Islã se contrapõe ao Ocidente, são profundas.Há 30 milhões de muçulmanos vivendo em países do Ocidente - muçulmanos ocidentais. Uma nova geração deles nos mostra que não existe conflito inerente a ambos.* Tony Blair foi primeiro-ministro da Grã-Bretanha de 1997 a 2007 e escreveu este artigo para o ?International Herald Tribune?

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