Baek Seung-ryul/Yonhap via AP
Baek Seung-ryul/Yonhap via AP

Diálogo entre Coreias

Na Coreia do Sul, 60 mil sofrem com a separação das famílias desde 1953

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2017 | 05h00

Poucos dias depois de a Coreia do Norte testar com sucesso o lançamento de um míssil intercontinental, capaz de atingir o território americano no Alasca, eis que o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, eleito em maio, faz uma proposta estranha. Ele quer um encontro entre as duas Coreias inimigas no dia 21, em Panmunjon, ou seja, no meio da zona desmilitarizada que separa a Coreia do Norte (comunista) da Coreia do Sul (democrática). 

A ideia de Moon Jae-in parece ainda menos apropriada diante do fato de Donald Trump estar furioso com a obstinação de Pyongyang. Os testes nucleares e as exibições de mísseis norte-coreanos provocaram inúmeros acessos de raiva no presidente dos EUA. Donald Trump ficou perturbado, tentou incitar os chineses, ameaçou usar sua força para calar a pequena nação asiática, que parece não ter nenhuma política além de se equipar para produzir e lançar sobre a América a arma mais terrível de todos os tempos, tão mortal que ninguém se atreveu a usá-la depois agosto de 1945 em Hiroshima e Nagasaki.

Mau momento, portanto, para ir contra a maré de Washington, de quem o governo de Seul é “cliente”. Mas também se pode dizer o contrário: por anos, a Coreia do Norte foi descrita como um país pobre, fraco, nulo e instável, sempre à beira do colapso. Esse país, no entanto, continua imperturbável a fazer bombas e mísseis cada vez mais eficientes. 

É preciso dizer algumas palavras sobre a Coreia do Sul e seu novo presidente, Moon Jae-in. Antes dele, o país foi dirigido por “conservadores” (Lee Myung-bak e, depois, Park Geun-hye) muito agressivos, que tentaram sufocar a Coreia do Norte. O resultado desse período conflituoso – que se encerrou este ano, com a prisão da ligeiramente desvairada presidente Park Geun-hye, por corrupção – foi igual a zero. Nada, nenhuma ameaça de bloqueio ou guerra conseguiu dissuadir a Coreia do Norte de sua vontade de enfrentar os “inimigos capitalistas”, ou seja, a Coreia do Sul e os EUA.

Moderado, o novo presidente Moon Jae-in chegou à conclusão de que a política de ameaças e bombardeios não tinha a menor chance de sucesso e de que seria mais sensato experimentar uma estratégia mais branda, mais respeitosa com a outra Coreia. De fato, em um período anterior, entre 1998 e 2008, a Coreia do Norte esteve nas mãos de pessoas mais inteligentes, que haviam escolhido a via pacífica (a política do “raio de sol”), e isso propiciou um arrefecimento sensível na tensão.

Até agora, Pyongyang não respondeu ao convite de Moon Jae-in. A proposta da Coreia do Sul é prudente. Ela não quer resolver todas as diferenças entre os países, procura apenas estabelecer diálogos entre militares. O local proposto é simbólico: a linha fronteiriça (DMZ), pois é aí que os países dão vazão a seus atos hostis e perigosos. 

Se o encontro acontecer, sem dúvida também tratará de uma questão que está no ar há mais de 60 anos e parece cada vez mais dolorosa: o reencontro de famílias separadas pela Guerra da Coreia (1950-1953). Na Coreia do Sul, existem cerca de 60 mil pessoas que sofrem com essa ruptura desde 1953. São reféns do sofrimento.

É claro que a iniciativa de Moon Jae-in exasperou a direita sul-coreana, que, com o patrocínio dos EUA, preferiria aumentar ainda mais as pressões. Mas a população – cansada da longa espera, aflita com os últimos testes de mísseis norte-coreanos e com as rumorosas declarações de Trump – é favorável à tentativa um tanto desesperada de Moon Jae-in. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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