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Diálogo ingênuo ou útil na Venezuela?

Antes de uma negociação, Maduro deveria antecipar eleição e soltar presos políticos

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 05h00

O Irã quer diálogo na Venezuela. “O caos não pode ser a solução para as diferenças políticas”, disse Abbas Mousavi, porta-voz do Ministério do Exterior iraniano. O governo chinês também manifestou esperança de que “as partes em conflito resolvam suas diferenças políticas por meio do diálogo”. Igualmente o chanceler russo, Serguei Lavrov, a ONU, a OEA, o Grupo de Contato da União Europeia, o Grupo de Lima e uma longa lista de governos e organizações. 

Todos querem o diálogo político na Venezuela. “Todos” menos os venezuelanos, que já têm duas décadas de experiência “dialogando”, primeiro com Hugo Chávez, depois com Nicolás Maduro. Resultado? Todos os diálogos acabaram fortalecendo o governo e enfraquecendo a oposição. 

Entre outubro de 2002 e maio de 2003, por exemplo, César Gaviria, então secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), dedicou-se quase em tempo integral a propiciar em Caracas um diálogo entre o governo de Chávez e representantes da oposição. O ex-presidente americano Jimmy Carter também participou ativamente. Resultado? Enquanto a oposição negociava com o governo e todos os meios de comunicação se ocupavam em informar sobre “o diálogo”, o regime cubano consolidava sua influência na Venezuela.

Em 2014, o governo Maduro enfrentou fortes manifestações protagonizadas principalmente por estudantes. Respondeu com suas armas favoritas: repressão e diálogo. A negociação em questão teve lugar no palácio presidencial, foi televisionado e alguns líderes oposicionistas puderam ser ouvidos pelo país. Maduro também convidou o cardeal Pietro Parolin, número 2 do Vaticano, que também havia sido núncio na Venezuela, a participar como “testemunha da boa-fé” das negociações. Resultado? Os protestos se calaram, milhares de estudantes foram presos, muitos deles torturados e outros assassinados. Leopoldo López, o líder mais popular da oposição, foi encarcerado e condenado a 14 anos de prisão. Maduro consolidou seu poder. 

Dois anos depois, voltou a acontecer o mesmo. Sentindo-se enfraquecido, Maduro convocou ao diálogo, dessa vez na República Dominicana. Foi um caos: delegações demais, confusão, divisões e promessas não cumpridas. O melhor indicador dessa reunião é que ela teve a ativa mediação de José Luis Rodríguez Zapatero. 

Assim, não é de se estranhar que entre os adversários do regime de Maduro o diálogo tenha má fama. O ideal, portanto, seria que Maduro e seus sequazes caíssem sob o peso de sua impopularidade, dissidências internas, aprofundamento da crise humana, descontentamento de grupos militares, pressão internacional e consolidação do governo de Juan Guaidó. Como sabemos, o ideal às vezes não é realista. É possível que a situação atual se prolongue e a única forma de se neutralizar Maduro, convocar eleições não fraudadas e dar início a novas políticas que atenuem as crises letais que aniquilam os venezuelanos seja por meio de acordos entre a oposição e o regime. 

Compreensivelmente, essa ideia repugna a muitos, mas, lamentavelmente, também pode ser inevitável. Um prolongado status quo significa a morte de milhares de pessoas, mais refugiados venezuelanos em outros países e o agravamento da crise. 

A boa notícia é que as sociedades e seus políticos aprendem. A sociedade venezuelana aprendeu que, até agora, os diálogos têm sido uma armadilha e não podem ser aceitos ingenuamente. A comunidade internacional democrática também não acredita em Maduro e exige fatos concretos que contribuam para reduzir a justificada desconfiança que se tem dele. 

Também é certo que nos diálogos anteriores a oposição estava mais fraca e desorganizada, não contava com o apoio de 54 países e o regime de Maduro não era tão vulnerável. O aprendizado da sociedade e a debilidade do regime permitem que a oposição exija que, antes de qualquer diálogo, o regime dê mostras de que vai negociar de boa-fé. Poderia, por exemplo, anunciar unilateralmente, e antes de se começar qualquer diálogo ou negociação, que aceita a antecipar eleições ou libertar os presos políticos e permitir a entrada maciça de ajuda humanitária. Mas isso tem de ocorrer antes de que a oposição se sente para negociar com o regime. 

Supor que Maduro e os seus possam participar de uma negociação sem mentir e sem manipulá-la pode ser ingenuidade. Mas talvez seja ainda mais ingênuo supor que na Venezuela seja possível evitar indefinidamente o diálogo político. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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