Diamantes não são os melhores amigos de Newt Gingrich

Crédito de US$ 500 mil na Tiffany's reforça pontos negativos de pré-candidato republicano à presidência dos EUA

Sheryl Gay Stolberg, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Na longa lista de manias extravagantes reveladas em momentos cruciais de campanhas eleitorais - o corte de cabelo de US$ 400 de John Edward, os esportes radicais de John Kerry e a incapacidade de John McCain de lembrar-se quantas residências possuía, por exemplo - acrescentemos agora a linha de crédito de US$ 500 mil que o republicano Newt Gingrich tem na rede de joalherias Tiffany"s.

No programa Face the Nation, da CBS, Gingrich disse ser "um candidato a presidente que paga todas as suas contas" e vive dentro do seu orçamento. O que alguns eleitores dos EUA poderão pensar, porém, é que ele paga mais por joias do que as pessoas pagam por suas casas. O jornal Politico divulgou que, quando trabalhava para a Comissão de Agricultura da Câmara, a mulher de Gingrich, Callista, preencheu formulários de imposto de renda de 2005 e 2006 declarando "um crédito rotativo" do seu marido de US$ 250.001 a US$ 500.000 na Tiffany"s.

Insistindo que os hábitos de compra de joias são de cunho pessoal, Gingrich não quis dizer o que comprou. Mas o reluzente colar de diamantes que Callista usou no mês passado se assemelhava muito à joia que a Tiffany"s anuncia por US$ 45 mil. E o site da revista Time postou na terça-feira uma série de fotos em que ela usava vários adornos parecidos aos do catálogo da rede.

Tiffany"s ou cópias? A campanha de Gingrich não diz. Mas, nesse momento, isso não tem mais importância, segundo estrategistas políticos. O que importa, dizem eles, é que o caso está ligado a Gingrich e ajuda a defini-lo - ou redefini-lo - nos críticos primeiros dias de sua tentativa de se tornar o candidato republicano à presidência.

Como presidente da Câmara, Gingrich sempre pregou o conservadorismo fiscal; agora, tem dificuldades para explicar como essas grandes somas gastas em joias se ajustam a essa filosofia. E uma questão envolvendo seis dígitos em compras de joias é o que a sua campanha menos deseja nesse momento.

O episódio reforça pontos negativos de Gingrich, principalmente as questões sobre sua vida pessoal - que inclui dois divórcios e um caso extraconjugal mantido em segredo por seis anos, com a atual sra. Gingrich. Na época, ela era assessora da Câmara e ele, o presidente. A campanha de Gingrich esperava que, depois de quase 11 anos de casamento com Callista, ele poderia se apresentar como um homem estável, de família.

Agora, porém, Gingrich tornou-se objeto de piadas sobre infidelidade em programas noturnos de TV. "US$ 500 mil na Tiffany"s? A explicação é simples. O sujeito claramente compra alianças de noivado no atacado", brincou o comediante Stephen Colbert.

Em Iowa, onde Gingrich atraiu uma grande multidão na semana retrasada, o site político The Iowa Republican publicou um comentário contundente, intitulado "Como um campeão da austeridade fiscal gasta US$ 500 mil na Tiffany"s". O editor do site, Craig Robinson, ex-diretor político do Partido Republicano no Estado, disse que o artigo foi oferecido por um ativista político "totalmente indignado com os gastos".

"É bizarro; não acho que ele (Gingrich) conseguirá fazer isso cair no esquecimento algum dia ", disse Robinson. "Não existem muitas casas de US$ 500 mil em Iowa, por isso não conseguimos nem fazer ideia de uma dívida com cartão de crédito de US$ 500 mil, ainda mais numa joalheria."

No Face the Nation, Gingrich classificou a linha de crédito como "uma conta sem juros padrão". Segundo o porta-voz da Tiffany"s, Carson Glover, a rede de lojas oferece aos clientes um contrato de um "cartão de crédito rotativo", com taxas específicas. As pessoas que possuem esse cartão podem pagar suas compras em até 12 vezes sem juros, caso gastem mais de US$ 1 mil numa aliança ou US$ 5 mil em outra mercadoria.

Gingrich, naturalmente, não é o primeiro político a se tornar repentinamente vítima dos gastos excessivos. Na campanha de 2008, Sarah Palin, candidata indicada à vice-presidência pelos republicanos, apresentou-se aos eleitores como uma "mãe comum", para depois enfrentar revelações de que o Partido Republicano havia gastado US$ 150 mil em seu guarda-roupa.

A situação de Gingrich "tem um duplo aspecto negativo, por isso é particularmente prejudicial" , disse Chris Lehane, estrategista democrata. Segundo a especialista, o caso levanta questões quanto ao compromisso dele com um rigor fiscal "e também implica uma questão de falta de disciplina e prudência, o que é recorrente em sua vida pública e política".

Gingrich, que enriqueceu nos últimos anos publicando livros, realizando filmes e dando palestras, diz que isso não tem a ver com imprudência. No Face the Nation, afirmou que não deve dinheiro a ninguém, exceto pelos pagamentos da hipoteca de uma propriedade em Wisconsin. "Se o governo dos EUA estivesse livre de dívidas, como eu, todos no país estariam comemorando. Acho que provei que consigo administrar o dinheiro."

Mas, em Iowa, Robinson diz que comprar joias a crédito é diferente de comprar eletrodomésticos. Ex-assessor de Gingrich, Rich Galen, concorda. "Não é o que pessoas normais fazem", disse. "Compreendo que ele ganhou muito dinheiro e prosperou, mas esse personagem diverge do Newt Gingrich que conheci". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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