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Diamantes negros

Na Líbia, organizou-se, ante o silêncio internacional, um novo tratado escravagista 

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2019 | 05h00

Não se passa um dia sem que informações vindas de agências de notícias ou pequenas matérias de jornal nos falem de revoltas em um país distante, da tomada de reféns, do sequestro de meninas que resultam em 50 ou 100 ou 200 mortes. Por força da monotonia, sequer imaginamos mais as paisagens, aldeias ou participantes dessas tragédias. Lemos cartas. Ouvimos números. Falta a carne humana, as paisagens, o cheiro de corpos pobres, porões e noites.

Dessa forma, desde 4 de abril, a Líbia tornou-se um “barco à deriva”, dividido entre duas cabeças: o líder do governo de união nacional instalado pela Organização das Nações Unidas, Fayez al-Sarraj, reconhecido pela comunidade internacional, e o general Khalifa Haftar, homem-forte da Líbia, que tem o apoio do Exército Nacional Líbio (ENL) e tenta cooptar milícias no centro do país.

Dois exércitos, dois pontos cardeais (leste e oeste) e duas selvagerias. Um novo caos se acumula acima do anterior, produzido pelas guerras civis que enlouqueceram esse país, antes próspero até a queda do déspota Muamar Kadafi, em 2011.

Uma das razões para esse caos é que a Líbia é a base da qual partem os migrantes da África, na esperança de chegar à Europa por meio de contrabandistas, em geral, sórdidos. Ontem, um livro foi lançado na França, contando a história dos africanos na Líbia, à espera de uma viagem, às vezes fatal, em um barco velho, em meio às seduções da Europa.

Alpha Kaba é um guineense. Na Líbia, ele estava na cidade de Beni Ulid. “O vendedor me apalpou. Ele examinou meus dentes. Colocou um dedo nas minhas costelas”, ele diz. “Um garoto de 15 anos jogava água e biscoitos para nós, ele estava rindo como no zoológico. O comprador acabou fazendo o negócio. O jovem guineense ficou sabendo que valia 50 dinares, ou seja, € 220. Perto dele havia homens, mulheres, crianças, em diferentes recintos. Em 50 anos, eu ainda pensarei nas torturas, na fome, no arame farpado sobre o qual fomos obrigados a caminhar. Comecei a escrever minha história na areia da Líbia, para desabafar.” 

Ele conta como durante dois anos foi escravo de milícias líbias e como na Líbia, que despencou no caos depois de 2011, organizou-se, em meio ao silêncio internacional, um novo tratado escravagista. “Quando cheguei à França, continuei escrevendo em pequenos pedaços de papel.”

Kaba refaz sua jornada. Ele deixa a Guiné, vai para Bamako, no Mali, depois para Argel e, em seguida, para a Líbia. No passado, o país foi um dos redutos do tráfico de escravos. Hoje, está retomando essa tradição. Em 2000, os negros sofreram com pogroms, atos em massa de violência, espontânea ou premeditada contra grupos étnicos ou religiosos. 

“O comércio de escravos é muito bem organizado. Nós os usamos para construir casas, eles apontam suas armas para nossas cabeças. Milhares de migrantes morreram na Líbia. Eu tive de enterrar muitos escravos”, conta Kaba.

Ele carrega sacos de cimento, ao som de chicotes. Ele dorme em uma caixa de papelão, na sujeira, no suor, no sangue. Os fugitivos são fuzilados. As mulheres grávidas dão à luz na prisão. Trabalhadores qualificados – carpinteiros – são os mais solicitados. Eles pertencem a um mestre ou são alugados por semana ou por dia.

O jovem guineense, após dois anos de inferno, foi “arrancado” do seu inferno pelo seu último dono, em 2016. Ele embarcou em uma canoa que afundou. Foi recolhido por um barco humanitário, o Aquarius, que está condenado a ficar no cais por falta de uma bandeira que lhe permita navegar.

Refugiado na França, matriculou-se em uma escola de jornalismo em Bordeaux. O livro fala de sua longa peregrinação. O culminar é um grito. Ele alerta sobre o que está acontecendo na escuridão da Líbia. Mostra o que, para nós, são apenas teoremas e abstrações. Aqui, os números são os da carne. “O Ocidente resignou-se”, disse o jovem. “Ainda assim, as pessoas continuam vítimas do comércio negro de escravos. As autoridades europeias e americanas precisam abrir os olhos.”

Em conclusão, ele implora àqueles que são chamados de “diamantes negros”, para jamais fazerem o caminho sem serem informado de antemão das consequências. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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