REUTERS/Argentine Presidency/
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Diante de Cristina e Cartes, papa pede menos egoísmo e mais hospitalidade

Líder católico adotou um discurso de críticas mais leves que as habituais ao sistema político e econômico mundial em despedida da América Latina

Rodrigo Cavalheiro ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S. Paulo

12 de julho de 2015 | 18h11

O papa Francisco celebrou na manhã deste domingo, 12, diante de 1 milhao de enlameados fiéis em Assunção, sua última missa na viagem de oito dias pela América Latina. Ele chega a Roma amanhã. 

Diante do presidente paraguaio, Horacio Cartes, e da argentina, Cristina Kirchner, o líder católico adotou um discurso de críticas mais leves que as habituais ao sistema político e econômico mundial. Sugeriu a substituição do egoísmo pela hospitalidade.

"Aprender a viver sob outra regra é passar da lógica do egoísmo, da luta da traição, à lógica do amor, da lógica de esmagar à lógica de receber e cuidar. São duas formas de afrontar a vida", disse.

A missa rezada em um parque encharcado, mas sob sol nos arredores de Assunção, foi "politizada" por quem editava a transmissão nos telões estacados na grama úmida, uma forma de evitar aglomeração ao redor do altar, decorado com produtos agrícolas locais. Cartes e Cristina apareceram com frequência, em ângulos fechados. 

"Achei um absurdo o destaque que deram para ela", opinou Juan Carlos Díaz, organizador de uma das excursões que levaram milhares de argentinos de ônibus para ver o conterrâneo, que ainda não voltou ao seu país natal. Ele deve visitar  Argentina, Uruguai e Chile em 2016, provavelmente em setembro. 

O encontro foi o sexto entre Francisco e a líder argentina em dois anos. Os fiéis católicos argentinos não costumam perdoar a presidente por ter se recusado a receber o então arcebispo Jorge Bergoglio em audiência. "Ela o usa politicamente sem constrangimento. Não pediria tantas reuniões se ele não fosse papa", disse a corretora argentina Norma Romano. Ao final da missa, Cristina o cumprimentou rapidamente e deu-lhe um rosário.

Em 2010, a relação entre os dois, ruim desde o governo de Néstor Kirchner (2003-2007), morto em 2010, piorou com a aprovação do casamento homossexual no país.

Quando Francisco assumiu o posto, em 13 de março de 2013, a resposta inicial de Cristina foi fria, de boas-vindas a um "papa latino-americano". O jornal Página 12, um dos porta-vozes do governo, acusou Bergoglio de ter ajudado o regime militar, o que foi desmetido pelas duas supostas vítimas de repressão. Cristina buscou a reaproximação e conseguiu. "Ele tem interesse em uma transição institucional na Argentina", diz o analista político Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires. O país tem eleição em outubro.

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