Diante de sinais de insatisfação, Putin reforça seu poder

Às vésperas das eleições legislativas, premiê ameaça oposição e a adverte a não colocar em risco a estabilidade da Rússia

DAVID HERSZENHORN THE NEW YORK TIMES / MOSCOU , O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h03

Com as eleições parlamentares marcadas para o dia 4, o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, fez questão de ressaltar que o país não pode se dar ao luxo de deixar que a oposição e os desacordos ponham em risco "a estabilidade, a soberania e o bem-estar do povo". Em discurso na última sessão da atual legislatura, na quarta-feira, ele pediu a união dos deputados sob o rígido controle de seu governo "para que o barco não vire".

O primeiro-ministro fez uma enfática defesa da continuidade do governo que ele lidera há 12 anos - primeiro como presidente, e, agora, como premiê. Putin planeja se manter à frente da Rússia ao voltar para a presidência, no ano que vem, para um mandato de seis anos, com direito à reeleição.

Houve também sinais de crescente frustração entre seus oponentes. Vários integrantes da oposição não se levantaram quando Putin entrou na Câmara, um sinal de desrespeito que o primeiro-ministro destacou em seus comentários iniciais.

"Hoje, quero dirigir palavras de agradecimento a todos os representantes da Duma, independentemente de sua filiação partidária", disse. "Àqueles que se levantaram hoje e àqueles que não quiseram se levantar, ofereço meu sincero agradecimento pelo seu trabalho em equipe."

A demonstração de desprezo, principalmente por parte de deputados do Partido Comunista e do Partido Rússia Justa, ocorreu poucos dias depois de Putin ter sido vaiado pela plateia de um torneio de artes marciais - uma inesperada crise de relações públicas que deixou o Kremlin sem explicações.

Uma análise sugerida pelo assessor de imprensa de Putin dizia que a plateia não estava vaiando Putin, mas sim o lutador americano que participaria do combate, Jeff Monson, que perdeu para o russo Fedor Emelianenko.

Surpreendentemente, isso fez com que a situação piorasse. Centenas de fãs russos postaram mensagens de apoio a Monson em sua página do Facebook, para deixar claro que as vaias foram para o primeiro-ministro. E Putin sentiu-se obrigado a telefonar para Monson e cumprimentá-lo pela luta.

Ilya Ponomaryov, parlamentar do Rússia Justa que estava entre os que não se levantaram, disse que a visita de Putin foi uma surpresa. "Se soubéssemos da vinda dele, teríamos preparado apitos. E aposto que muitos colegas tomariam parte do gesto de crítica", disse.

Não há dúvida de que o partido de Putin, o Rússia Unida, sairá vencedor nas urnas, mas um grande declínio da aprovação do público pode transmitir a mensagem de que o controle de Putin sobre o poder não é tão forte quanto ele crê.

Ainda assim, se o primeiro-ministro ficou minimamente perturbado pelas manifestações de descontentamento que parecem estar surgindo na Rússia, ele não deu nenhuma demonstração pública disso.

O discurso de Putin na Duma foi repleto de agradecimentos aos membros do Legislativo, vistos como desprovidos de poder, e pelo desejo de desafiar o Executivo.

O premiê não pareceu preocupado ao destacar a impotência dos deputados - ao fazer críticas sutis, supostamente dirigidas às democracias ocidentais, que enfrentaram momentos de dificuldade na busca por uma solução para a crise financeira.

"Percebo que, durante a crise, a grande vantagem de nosso país em relação aos demais esteve no trabalho coordenado entre governo e Parlamento", disse Putin. "Quando decisões precisam ser tomadas rapidamente, as discussões intermináveis são muito mais perigosas do que uma decisão tomada, ainda que ela contenha certas discrepâncias."

Putin também disse que pode não passar de um "desejo inócuo" a expectativa de que os opositores "se comportem com calma, sem agitar o barco", mas insistiu que, diante da oposição, seu governo reforçará o controle do Estado.

Apesar da aparência filosófica do comentário, as palavras dele foram interpretadas como um alerta de que a dissidência não seria tolerada. "É para isso que serve a oposição", disse Putin. "Para que o governo reforce o controle do timão e prove à sociedade que os rumos seguidos são os mais corretos."

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