Stefanie Loos/Reuters
Stefanie Loos/Reuters

Diante do vírus, ditador enfia a cabeça na areia

Gurbanguly Berdymukhamedov, do Turcomenistão, recomenda erva para matar vírus; país não relata casos de infecção

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 05h00

Em poucos lugares do mundo a negação da pandemia é mais evidente do que no Turcomenistão, onde coronavírus se tornou um palavrão evitado a todo custo. No dia 26 de março, a imprensa local relatou casos de pessoas presas por policiais à paisana por discutirem sobre o surto em público. A ordem vem do ditador Gurbanguly Berdymukhamedov, que garante que não há registro de casos no país – apesar de estar rodeado de vizinhos infestados.

É por isso que o autocrata turcomano faz parte da “Aliança dos Avestruzes”, termo cunhado pelo professor Oliver Stuenkel, da FGV, para designar o grupo de quatro países – Turcomenistão, Nicarágua, Bielo-Rússia e Brasil –, que a revista The Economist considerou como os mais negacionistas do mundo, na semana passada. 

“O Turcomenistão é um país cheio de mistério e dados não confiáveis. O fluxo de informações é rigidamente controlado, assim como qualquer coisa que possa prejudicar a estabilidade do regime de Berdymukhamedov”, explicou Alberto Turkstra, pesquisador do Instituto Europeu de Estudos Asiáticos (Eias), de Bruxelas. “Por isso, discussões públicas sobre o coronavírus têm sido evitadas.”

O Turcomenistão vive um isolamento ao estilo norte-coreano, mas relegado ao esquecimento no meio da Ásia Central. Quando vira notícia, é sempre por algum motivo bizarro, como em 2015, quando o ditador inaugurou uma estátua de ouro de 20 metros de altura dele mesmo montado em um cavalo.

Berdymukhamedov está no poder desde 2006 e foi reeleito três vezes, a última em 2017, com mais de 97% dos votos. Mas, se fraudar eleições e desmantelar a oposição virou sua especialidade, combater uma pandemia é uma ameaça aterrorizante para um regime que não consegue identificar o inimigo. 

Aos 63 anos, dentista de formação, ele gosta de se passar por DJ, compositor e escritor – é autor de sucesso, segundo a imprensa local, de vários best sellers sobre ervas medicinais. Por isso, Berdymukhamedov se sentiu obrigado a palpitar e recomendou à população inalar fumaça de harmala, uma planta alcaloide, para matar qualquer vírus invisível. 

Uma das poucas medidas concretas foi cancelar voos da China, Tailândia e Malásia, em fevereiro. E foi só. Para comemorar o Dia Mundial da Saúde, no início do mês, seu governo ignorou as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e promoveu um tour de bicicleta por 25 quilômetros na capital. 

Epidemiologistas e opositores temem um desastre, mas nada que a máquina de propaganda oficial não resolva. Normalmente, as TVs e a imprensa turcomana não reportam problemas, mesmo desastres naturais, como furacões, terremotos ou enchentes. “A mesma tática foi escolhida para a epidemia do coronavírus”, explica Ruslan Tuhbatullin, dissidente que vive na Europa e é editor do site Chronicles of Turkmenistan. 

Tuhbatullin conta que, no início do ano, as autoridades ignoraram o vírus. Depois, quando a crise ganhou estatura global, a imprensa estatal começou a tratar a pandemia com cautela, mas evitando o máximo possível a palavra coronavírus.

“Agora, a mídia local informa periodicamente sobre o coronavírus, mas como um problema global e sempre lembrando que não há casos no Turcomenistão graças à política do presidente e às medidas preliminares tomadas pelo governo”, afirmou. “Mas duvido que não haja pessoas infectadas no país.”

Mas o vírus não se combate com decretos. No fim de março, fontes anônimas garantiram ao serviço local da Radio Free Europe que havia vários casos confirmados em um hospital de Choganly, nos arredores da capital. Há relatos também de moradores de Turkmenabat, cidade na fronteira com o Usbequistão, de muitos passageiros que chegaram com febre ao aeroporto local e pagaram até US$ 150 de suborno a policiais para escapar da quarentena obrigatória. 

Mas se o governo consegue controlar a pandemia não divulgando dados, conter os prejuízos econômicos é mais difícil. Apesar de bares e restaurantes funcionarem normalmente, os fluxos de mercadorias de Usbequistão e Irã foram interrompidos. Há redução na disponibilidade de alimentos e aumento dos preços. 

“As economias da Ásia Central – Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Usbequistão – serão inevitavelmente afetadas pela queda nos preços das commodities e pelo declínio nas remessas de dinheiro de imigrantes”, afirma Calum Thomson, também pesquisador do Instituto Europeu de Estudos Asiáticos, especializado em Ásia Central. 

Para muitos opositores, é difícil imaginar o resultado da negligência no longo prazo. “Claro que muita gente vai morrer”, disse Diana Serebryannik, ativista que fugiu do Turcomenistão em 2015 e dirige uma organização de defesa dos direitos humanos. “Eles serão enterrados e ninguém nunca vai saber se morreram de coronavírus ou qualquer outra doença.” Sem liberdade de imprensa e com um sistema de saúde inadequado, a única alternativa de Berdymukhamedov parece ser mesmo enfiar a cabeça na areia e esperar o perigo passar. 

 

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