Diário de Caracas: Escassez causa temor de retrocesso no combate à aids

Grupos de apoio a portadores do vírus HIV e de prevenção da aids estão preocupados com o possível retrocesso da Venezuela no combate à doença

Roberto Lameirinhas ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2015 | 02h02

Grupos de apoio a portadores do vírus HIV e de prevenção da aids estão preocupados com o possível retrocesso da Venezuela no combate à doença. Os últimos números, de 2013, indicavam que o país tinha 84 mil portadores do HIV e pouco mais da metade deles, 44 mil, se beneficiavam do tratamento público e gratuito providenciado pelo Estado. Desde 2009 até 2012, o número de casos novos estava estabilizado – e o de mortes em decorrência da aids vinha diminuindo.

“Fizemos um grande trabalho até agora, mas a situação de escassez que afeta vários produtos no país pode colocar tudo a perder”, disse ao Estado um funcionário da Onusida Venezuela, ligada ao Ministério da Saúde. “Há alguns anos, os pacientes têm sofrido com a falta de medicamentos antirretrovirais e, nos últimos meses, estamos enfrentando o problema da falta de preservativos.”

O funcionário explica que os bons resultados na redução de novos casos foram consequência direta da política oficial de distribuição gratuita de camisinhas. Mais da metade desses casos novos se registram entre homens de 17 a 24 anos e uma campanha intensa pelo uso do preservativo vinha sendo realizada. Com a escassez do produto, teme-se um aumento significativo de novas infecções.

Nos primeiros meses de 2015, uma caixa com 36 camisinhas chegava a ser vendida em sites como o Mercado Livre a preços equivalentes a US$ 500. Hoje, a situação de abastecimento de preservativos melhorou, mas o preço ainda é alto, em torno de US$ 5.

Coquetéis. Os comprimidos que compõem os coquetéis que retardam a ação do HIV também têm desaparecido das prateleiras das entidades oficiais de tempos em tempos. “A falta de continuidade no tratamento com antirretrovirais causa a piora no estado geral do paciente, o aumento da taxa de abandono da terapia e a maior exposição do doente às infecções oportunistas que podem levar à morte”, explica o funcionário da Onusida. 

Outro fator de preocupação é a falha no combate à chamada transmissão vertical, uma vez que soropositivas grávidas têm ficado sem o tratamento.

Há ainda a falta de reagentes para testes do tipo Elisa, o que dificulta o diagnóstico de novos casos. “É possível que, caso sujam novos indicadores referentes a 2013 e 2014, seja constatada uma redução na detecção de infectados”, diz o agente de saúde. “Mas isso se deveria muito mais à redução do volume de diagnósticos do que ao sucesso da política de prevenção.”

A Venezuela tem a terceira maior taxa per capita de infecção pelo vírus HIV na América do Sul, atrás apenas de Brasil e Paraguai, segundo dados das Nações Unidas.

Tudo o que sabemos sobre:
Venezuelaaids

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.