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Cubanos acessam sinal de internet em um dos 35 pontos de Havana que têm Wi-Fi; apesar de ter sido reduzido, preço é muito alto REUTERS/Enrique de la Osa

DIÁRIO DE HAVANA: Carros dos anos 50 ainda são símbolos das ruas da capital

Carro é um bem passado de pai para filho em Havana. Muitos já estão na terceira geração de proprietários e se valem do engenho cubano e do mercado paralelo para mantê-los andando em meio ao embargo econômico dos EUA. Peças são inventadas, substituídas pelas de outros veículos ou trazidas na mala por amigos que vêm do exterior. 

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2015 | 01h10

A chance de cubanos saírem e cubano-americanos entrarem no país abriu um mercado informal que vai de roupas a motores de arranque.

A frota nas ruas da capital é o retrato da geopolítica vivida pelo país nos últimos 60 anos. Os Chevrolets da década de 50 – cerca de 60 mil exemplares – são a memória ambulante do período em que os EUA tinham domínio econômico da ilha e a máfia administrava hotéis, cassinos e casas noturnas.

A maioria dos carros clássicos se converteu em um meio de transporte híbrido de táxi e ônibus. Com trajetos mais ou menos definidos, os motoristas lotam os carros com até oito passageiros, que pagam de 10 a 20 pesos pela corrida, dependendo da extensão – valores equivalentes a US$ 0,40 e US$ 0,80. 

Outros preferem transportar turistas, ao preço mínimo de 5 CUCs (US$ 5,7), a moeda conversível cubana, que é usada por estrangeiros e cada vez mais por cubanos. Também há uma frota oficial de táxis, com novos carros amarelos. Mas o preço a torna inalcançável para a maioria dos cubanos: uma corrida do aeroporto ao centro de Havana custa 25 CUCs (US$ 29), valor que supera o salário médio mensal, que ronda os US$ 20.

O período de influência soviética é representado por carros menos glamourosos, como os pequenos Lada e Moscovich. José Luis, o motorista que me conduz por Havana, é dono de um Moscovich 1980 que herdou do pai. Dilapidado como grande parte da paisagem urbana de Havana, o carro é reparado pelo próprio dono, com peças que saem de outros Moscovichs. 

Os mecanismos dos vidros, já originalmente manuais, não funcionam. Quando começou a chover no trajeto do aeroporto ao hotel, José Luís teve de parar o carro para puxar os vidros das duas portas com as mãos. Para mantê-los fechados, desenvolveu um gancho que os sustenta. 

Ex-militar, José Luís viveu cinco anos na União Soviética, até 1983. Desde 1993, se vira como pode no incipiente mundo da iniciativa privada cubana – é um “faz tudo” que presta serviços de encanador, eletricista, pintor e motorista. A precariedade do carro se reflete no preço. José Luís cobra 30 CUCs por dia de trabalho, pouco mais de uma corrida do aeroporto à cidade em táxi oficial.

Mas a opção por ele e seu Moscovich não foi definida por questão financeira. José Luís foi recomendado por meu colega José Maria Mayrink, que o conheceu quando esteve em Cuba nos anos 90.

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Produção jornalística ainda é escassa na ilha

Uma das poucas publicações diárias de circulação nacional em Cuba é o Granma, do Partido Comunista cubano

Cláudia Trevisan - Enviada Especial/Havana , O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2015 | 01h00

Jornais são algo raro em Cuba. Uma das poucas publicações diárias de circulação nacional é o Granma, do Partido Comunista cubano, batizado com o nome do barco no qual Fidel Castro e outros 81 revolucionários desembarcaram na ilha, em 1956, para iniciar a luta armada contra o presidente Fulgencio Batista.

No sábado, a manchete da publicação era “Raúl recebeu o presidente Maduro”, uma referência aos presidentes de Cuba e da Venezuela. Abaixo, aparecia o relato sobre o hasteamento da bandeira americana na Embaixada dos EUA e a visita do secretário de Estado, John Kerry, a primeira em 70 anos: “Começa um longo e complexo caminho”.

Nas páginas internas, estavam a íntegra da entrevista coletiva concedida pelo americano e pelo ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, e do discurso feito por Kerry na Embaixada dos Estados Unidos em Havana, no qual ele defendeu a democracia e as eleições livres em Cuba.

Além do Granma, que tem apenas oito páginas, os cubanos podem ler o Juventud Rebelde, editado pela Liga da Juventude Comunista. No sábado, o alto da primeira página também era ocupado pelo encontro entre Castro e Maduro. Em seguida, aparecia o texto sobre a visita do secretário americano: “É possível construir relações civilizadas entre Cuba e os Estados Unidos”. Como o Granma, a publicação tem oito páginas.

O repertório de veículos impressos é completado por alguns jornais regionais e pela revista Bohemia, a mais antiga da América Latina. Fundada em 1908, sua direção foi assumida pelos revolucionários de 1959, que a transformaram em mais um meio da propaganda oficial. 

Bohemia é publicada a cada duas semanas, com 82 páginas. A versão online da revista traz discursos Fidel e de Raúl Castro, além de uma série de “reflexões” e “mensagens” do ex-presidente, que se afastou do poder em 2006.

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Havana ainda guarda marcas do confronto com Washington

Apesar dos sinais da Guerra Fria, cubanos veem com esperança o restabelecimento das relações com os EUA

Claudia Trevisan / Enviada Especial, Havana, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2015 | 01h00

O entorno da Embaixada dos EUA em Havana é um microcosmo das hostilidades que marcaram o relacionamento entre os dois países desde 1961, quando Washington rompeu relações com o governo de Fidel Castro. A praça diante do edifício é chamada de Tribuna Anti-Imperialista e carrega a memória do período em que os cubanos se manifestavam contra a “agressão ianque” e os americanos tentavam desestabilizar o regime comunista.

O muro ao lado da embaixada traz o slogan “Pátria o Muerte”, de um lado, e “Venceremos”, de outro. A poucos metros foram erguidos 138 mastros de bandeiras, que segundo o governo cubano eram uma resposta à “torpe soberba” dos EUA. Erguidos em 2006, os mastros foram ocupados por bandeiras negras que cumpriam a função de obstruir a visão de letreiros luminosos com notícias do dia que apareciam no alto do edifício. 

Situação precária. Os países não tinham relações diplomáticas, mas em 1977 fecharam um acordo para abertura de seções de interesses. No dia 17 de dezembro, os presidentes Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a decisão de restabelecer laços diplomáticos e reabrir as embaixadas.

“O povo cubano ganhou a batalha”, disse José Antonio González, de 52 anos, que vive em um dos edifícios diante da Tribuna Anti-Imperialista. “Poucos povos suportaram uma hostilidade tão grande como nós suportamos nos últimos 50 anos”, afirmou seu vizinho, Miguel Ángel Fernández, de 78.

Mesmo com o orgulho da história nacional, ambos reconhecem que a situação econômica de Cuba é precária e veem na reaproximação um sinal de mudanças. “Ela trará investimentos e comércio”, diz González. “Também abrirá caminho para o acesso a bens de consumo que hoje estão distantes da maioria dos cubanos”, acredita Fernández.

Outro vizinho, André Hernández, de 55 anos, observa que o poder aquisitivo ainda é muito baixo, mesmo para aqueles que trabalham por conta própria, como ele e González.

A Tribuna Anti-Imperialista é uma praça construída no início da década passada, depois que o então menino Elián González se transformou em um ator involuntário do enfrentamento entre os cubanos que emigraram para os EUA e os que permaneceram na ilha.

Os que foram logo depois da Revolução de 1959 costumam ser chamados de “gusanos” (vermes) pelos aliados do governo. Milhares de outros foram depois do fim da União Soviética, que deu início a uma fase de fome, escassez e precariedade que os cubanos batizaram de “período especial”.

Elián tinha 8 anos quando tomou uma embarcação clandestina com sua mãe e outras 12 pessoas na direção da Flórida, no ano 2000. O barco naufragou, causando a morte de dez passageiros, entre os quais a mãe de Elián. Durante meses, sua guarda foi objeto de disputa entre seu pai e a comunidade de exilados cubanos em Miami. Por decisão da Justiça americana, Elián acabou voltando a Cuba e entregue a seu pai.

No fim da praça está a estátua do menino no colo de José Martí (1853-1895), considerado o herói da independência de Cuba em relação aos espanhóis. Nela, Martí aponta de maneira acusadora para o edifício da Embaixada dos EUA.

Apesar das hostilidades das últimas cinco décadas, é difícil encontrar um cubano que não tenha algum parente vivendo nos EUA. A ilha tem 11 milhões de habitantes e há pelo menos outros 2 milhões vivendo do outro lado do Estreito da Flórida, muitos dos quais em Miami. As remessas enviadas pelos parentes nos EUA são uma das principais fonte de divisas de Cuba.

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De cardápio controlado a restaurantes de luxo

A novela brasileira Vale Tudo é a fonte de inspiração de paladar, o nome que se transformou em sinônimo de restaurantes particulares em Cuba. Tímidos quando surgiram, nos anos 90, eles vivem uma explosão desde que Raúl Castro acabou com uma série de restrições para seu funcionamento, a partir de 2008.</p>

Cláudia Trevisan - Enviada Especial/Havana , O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 01h10

Os primeiros paladares apareceram em meados da década de 90, quando Vale Tudo era uma febre em Cuba. A personagem Raquel, interpretada por Regina Duarte, começou a trama como vendedora de sanduíche natural e terminou como dona de uma rede de restaurantes, chamada Paladar. 

O espaço para que empreendedores privados criassem seus negócios surgiu na esteira da crise desencadeada pelo fim da URSS. Na época, todos os restaurantes de Cuba eram controlados pelo Estado. Além do pouco apelo da comida, eram célebres pela escassez de produtos. 

A primeira fase da liberalização era cheia de restrições, que incluíam um limite de 12 lugares por estabelecimento e controles sobre o cardápio. As amarras foram afrouxadas no fim da década passada e o os paladares se multiplicaram e se sofisticaram. Aberto há dez meses e especializado em comida espanhola, o Casa Pilar poderia estar em qualquer grande cidade do mundo. 

O Atelier funciona em uma casa no bairro de Vedado, um dos mais ricos de Havana, e tem um terraço decorado com antigos anúncios de Coca-Cola. Um jantar com bebida em qualquer dos dois custa cerca de US$ 20, cifra equivalente à média dos salários mensais dos que trabalham para o Estado.

As contas nos paladares devem ser pagas em CUC, a moeda conversível que circula na indústria do turismo de Cuba. Em 2014, o país recebeu 3 milhões de visitantes, metade do número que foi ao Brasil, país com extensão territorial 70 vezes maior que a da ilha. Apesar de os estrangeiros integrarem grande parte da clientela dos paladares mais caros, a frequência de cubanos é cada vez maior. A popularidade se reflete na internet. O site Conoce Cuba lista 300 paladares só em Havana, enquanto o AlaMesa tem informações sobre restaurantes.

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Nas calçadas para acessar a internet

<span style="line-height:1.6">Conseguir conectar-se à internet em Havana é um exercício que demanda tempo, dinheiro e disposição. Proibidos de ter acesso à rede em casa, os cubanos se reúnem com seus celulares, tablets e laptops nas calçadas de 35 locais da cidade que têm Wi-Fi. Para usar o serviço, pagam cerca de US$ 2 a hora.</span></p>

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana , O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 17h40

O preço é metade do que vigorava até o mês passado, mas ainda é uma extorsão para a maioria da população, o que explica o sucesso do pacote semanal, a compilação de filmes, novelas, revistas e documentários que descarregam em seus computadores. Quando se conectam, os cubanos passam o menor tempo possível online e dão prioridade a enviar mensagens e a atualização de suas páginas no Facebook. 

O sinal de Wi-Fi é instável e fica indisponível com frequência. O pagamento é feito pela abertura de uma conta na estatal de telefonia e o depósito antecipado de créditos. Para se desconectar, o usuário deve entrar em uma página na internet e encerrar sua sessão. Quem não tem uma conta, usa cartões pré-pagos.

Na noite de quarta-feira, a cabeleireira Ives Rodríguez estava entre as cerca de 15 pessoas sentadas na calçada tentando captar o sinal de Wi-Fi. “É uma vergonha ter que estar do lado fora de um hotel para me conectar à internet”, afirmou, enquanto tentava entrar na rede. “Estamos desejando aos gritos que nos permitam acesso à comunicação.” Rodríguez integra a legião de cubanos que têm parentes nos EUA, para onde viajou quatro vezes nos últimos dois anos. Em seu colo, estava um laptop da Apple, que comprou em uma de suas visitas.

Mesmo com as restrições oficiais, alguns cubanos encontram maneiras de ter internet em suas casas. O tradutor Sergio Mercenit, por exemplo, paga 60 CUCs (US$ 69) ao mês por um modem que lhe dá acesso a 50 horas durante o mesmo período - menos de duas horas por dia.

O aparelho realiza conexão por linha telefônica e está registrado em nome de um médico peruano, que como estrangeiro residente em Cuba tem o direito de acessar a internet em sua casa. Sem interesse pelo serviço, o médico “sublocou” o modem a Mercenit. 

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