Diário revela lado obscuro das Farc

Jovem holandesa relata dificuldades e denuncia privilégios de líderes da guerrilha no cotidiano dos acampamentos

Renata Miranda e Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2024 | 00h00

O que leva uma jovem holandesa, com uma vida confortável e a perspectiva de um futuro tranqüilo em seu país, a largar tudo para unir-se à guerrilha colombiana? A pergunta é a primeira coisa que vem à cabeça quando se conhece a história de Tanja Nijmeijer, guerrilheira de 29 anos que fugiu quando seu acampamento foi descoberto pelo Exército colombiano em meados de julho, deixando para trás seu diário com um precioso relato do dia-a-dia dos rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).A julgar pelo conteúdo do caderno, divulgado recentemente pelo jornal colombiano El Tiempo, a resposta parece ser uma mescla de idealismo, ingenuidade e o que alguns analistas definem como "nostalgia da ação revolucionária" - aquela ânsia de encontrar uma causa para lutar, num mundo no qual restou pouco espaço para as grandes ideologias."Alguns jovens europeus com uma genuína preocupação social têm uma visão romanceada da vida dos rebeldes das Farc", disse ao Estado Alejo Vargas, diretor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade Nacional da Colômbia. "A realidade é uma rotina de extensas caminhadas, tensões e confrontos, além de uma hierarquia militar rígida que decepciona quem sonha com um igualitarismo marxista."DA EUROPA PARA A SELVAAntes de embrenhar-se nas selvas da América do Sul, Tanja vivia em Groningen, uma pacata cidade universitária no norte da Holanda. A renda média dos habitantes supera os US$ 30 mil anuais e miséria e violência são termos restritos ao noticiário internacional ou às palestras sobre as mazelas do Terceiro Mundo. Em 2001, depois de formar-se em letras com especialização em espanhol, a jovem resolveu voltar para a Colômbia, país no qual havia vivido um ano antes participando de um programa de intercâmbio.Tanja dizia-se tocada pela pobreza da população colombiana e o objetivo declarado de sua viagem era "fazer trabalhos humanitários" com o apoio de uma ONG. Pouco depois, a holandesa já se havia integrado às fileiras das Farc e recebido um novo nome. Nascia a guerrilheira Eillen. Quando a unidade do Exército colombiano atacou, em julho, o acampamento coordenado por Carlos Antonio Lozada, dirigente das Farc, Eillen estava tomando banho. Nem ela nem seus companheiros tiveram tempo de recolher seus pertences. O diário que os soldados encontraram é o testemunho de como todos esses anos combatendo com o grupo esquerdista desgastaram as convicções da jovem idealista. "Estou cansada das Farc, cansada dessa gente, cansada da vida em comunidade e de nunca ter nada só pra mim. Que tipo de organização é essa em que alguns têm dinheiro, cigarros e doces e os demais (subordinados) têm de mendigar?", pergunta-se a holandesa.Alguns trechos do diário relatam a participação em ações militares, como uma longa tocaia para derrubar um helicóptero das Forças Militares colombianas. Em outra passagem, Tanja fala da saudade de casa e de como gostaria de tomar um café numa estação de trem em Groningen ou Amsterdã."A publicação do diário foi um golpe para as Farc", diz o cientista político Pedro Valenzuela, da Universidade Javeriana, em Bogotá. "Por isso, há quem diga que a vida de Tanja está em perigo, embora também seja possível que os rebeldes a poupem por ela ser estrangeira e sua história ter alcançado repercussão."Além do diário, os soldados também recolheram no acampamento o computador portátil de Lozada no qual havia um vídeo feito por Tanja para sua família. A gravação sugere que ela teria sido enviada aos Nijmeijers logo após uma visita da mãe de Tanja ao acampamento das Farc. Outro arquivo continha o nome de 23 europeus que se teriam integrado à guerrilha entre 2000 e 2002. Com eles, documentos que sugeriam a participação de ONGs no recrutamento.Os guerrilheiros estrangeiros são espanhóis, suecos, dinamarqueses, irlandeses, suíços, russos e holandeses. Ainda não se sabe ao certo como as Farc conseguiram recrutá-los. Segundo a cientista política holandesa Liduine Zampolle, que desde a década de 70 vem trabalhando com missões humanitárias e projetos de desenvolvimento social na Colômbia, muitos foram arregimentados pelo Partido Comunista Colombiano Clandestino (conhecido como PC3). Com o objetivo de substituir a imagem de grupo terrorista, as Farc teriam criado a organização, que se porta como um movimento organizado, com reivindicação legítima e fortes preocupações sociais. "Na época em que Tanja entrou para a luta armada ela já tinha informações sobre os crimes nos quais a guerrilha estava envolvida - seqüestros e ligações com o narcotráfico", diz Liduine. "Por isso, é bem provável que o trabalho de diplomacia e recrutamento realizado pelos integrantes das Farc na Europa tenha sido decisivo como instrumento de propaganda em contraposição à má fama."Aos poucos, a guerrilha teria obtido o apoio de centros acadêmicos de esquerda e algumas organizações civis. Os comunicados oficiais do grupo, por exemplo, hoje são difundidos por um site registrado na Dinamarca. No ano passado, quatro pessoas foram presas e outras sete investigadas nesse país por vender camisetas para financiar uma rádio das Farc (considerada um grupo terrorista pelo governo dinamarquês). Muitos analistas também destacam a importância da zona desmilitarizada (controlada pelas Farc até 2002) para a diplomacia da guerrilha. A área foi criada pelo presidente Andrés Pastrana em 1998 e tinha 42 mil quilômetros quadrados, o equivalente à da Suíça. "A existência dessa área reforçava o argumento de que as Farc eram uma espécie de Estado paralelo e não um grupo militar em confronto com um Estado legítimo", diz Alejo Vargas. Ele lembra que, na época, os guerrilheiros convidavam jovens estrangeiros, jornalistas e organizações internacionais para conhecer "o seu território". "Foi provavelmente dessa maneira que dezenas de europeus entraram em contato com os rebeldes", diz. Tanja faz parte do pequeno grupo de 23 jovens que, por idealismo ou ingenuidade, levaram a experiência às últimas conseqüências. Apesar de seus relatos indicarem que hoje ela gostaria de renunciar às armas, o fato de seu diário ter-se tornado público pode ter transformado um café na estação de Groningen num sonho ainda mais distante.

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