REUTERS/Enrique de la Osa
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Díaz-Canel: Afável em público, linha-dura entre os companheiros

Pouco se sabe de Díaz-Canel, mesmo em Cuba. As histórias mais populares descrevem como ele ia de bicicleta para o trabalho em Santa Clara, usa um iPad e é fã dos Beatles e dos Rolling Stones

Christopher Sabatini / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2018 | 05h00

Nos próximos dias, o Parlamento de Cuba escolherá o sucessor de Raúl Castro. A provável coroação do primeiro-vice-presidente, Miguel Díaz-Canel, será a primeira vez que alguém sem o nome Castro governará Cuba desde que Fulgêncio Batista fugiu na véspera do ano-novo e Fidel assumiu o poder, em janeiro de 1959.

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No momento em que Cuba passa por esta transição memorável, as relações com os EUA estão em seu ponto mais baixo. Embora prossigam as negociações sobre antiterrorismo e meio ambiente, a misteriosa doença do pessoal diplomático americano em Havana forneceu uma desculpa para o governo Trump reverter a distensão da era Obama e rebaixar as relações diplomáticas a seu pior nível desde a Guerra Fria.

Pouco se sabe de Díaz-Canel, mesmo em Cuba. Ele teve uma ascensão estável nas fileiras do Partido Comunista. As histórias mais populares descrevem como ele ia de bicicleta para o trabalho em Santa Clara, usa um iPad e é fã dos Beatles e dos Rolling Stones. Mas, apesar da propaganda, Díaz-Canel parece seguir fielmente o castrismo.

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Ao contrário de outros herdeiros, Diaz-Canel é discreto e leal. Uma reunião gravada no ano passado mostrou Diaz-Canel protestando contra ativistas de direitos humanos e embaixadas estrangeiras por “subversão”. Mas, mesmo que ele abrigasse desejos ocultos de reforma, teria pouca liberdade para alterar os rumos da revolução. 

Os mais de 600 delegados da Assembleia Nacional, que escolhem o presidente e o Conselho de Estado, foram eleitos a partir de uma lista de candidatos oficialmente aprovados. Não se deve esperar uma ruptura com o passado, quando a maioria das autoridades veio das entranhas da revolução.

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Além disso, a família Castro continuará a ter influência sobre qualquer futuro governo. Embora esteja deixando a presidência, Raúl, de 87 anos, continuará como secretário-geral do PC e chefe das Forças Armadas, que controlam grande parte da economia.

Além disso, há outros Castros. O filho de Raúl, Alejandro, é uma figura-chave no Ministério do Interior, que controla a polícia e o aparato repressivo. O ex-genro de Raúl, o general Luis Alberto Rodríguez, comanda a Gaesa, uma das maiores holdings militares.

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A economia é uma área na qual o sucessor pode ter espaço para mudanças. Para os cubanos sem acesso às remessas de US$ 3,3 bilhões que chegam a cada ano do exterior, e para os que têm acesso apenas às lojas estatais e ao sistema de cartões de racionamento, a vida é sombria.

A tábua de salvação fornecida pelo petróleo da Venezuela está secando e Cuba não tem uma base de exportações. A abertura econômica ficou aquém de suas metas. Os êxitos da revolução na saúde e na educação foram corroídos pela escassez e pela falta de investimento estatal.

O maior desafio será unificar o sistema de moeda dupla, que usa um peso doméstico e um peso internacional, para negociar com outros países. Unificar as moedas causará uma reviravolta na economia, aumentando os preços das importações e acabando com o sistema que muitas empresas usam para se manter artificialmente solventes, o que leva à inflação e ao desemprego. Modernizar a economia exige encarar essa mudança.

É aqui que os EUA podem entrar. Embora não seja do interesse americano promover investimentos para sustentar um regime repressivo, também não é de seu interesse ficar de lado enquanto um vizinho desmorona. Na pior das hipóteses, a crise resultaria em agitação social e em ondas de migração.

O FMI e o Banco Mundial poderiam oferecer assistência ao próximo governo, mas qualquer ajuda deve vir com uma forte mensagem de Washington de que Cuba deve evitar a repressão a protestos. Fazer isso exige a restauração da equipe da embaixada americana, para que os funcionários tenham contatos mais amplos em Cuba. Mesmo lentamente, a mudança de geração está chegando. Díaz-Canel terá de tomar decisões difíceis. Em vez de não se envolverem, os EUA deveriam desempenhar um papel cauteloso para moldar a abertura econômica e política de Cuba. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE COLUMBIA 

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