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Díaz-Canel, de 57 anos, será o sucessor de Raúl em Cuba

Atual primeiro vice-presidente do país foi o único a se candidatar à presidência e será o primeiro sem o sobrenome Castro a ocupar o maior cargo do país desde a revolução de 1959; resultado oficial deve ser divulgado na quinta-feira

O Estado de S.Paulo

18 Abril 2018 | 13h54

HAVANA - O número dois do governo de Cuba, Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, foi o único candidato a se apresentar para suceder a Raúl Castro na presidência do país, anunciou nesta quarta-feira, 18, a Assembleia Nacional do país.

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A postulação de Díaz-Canel foi lida por uma deputada porta-voz da comissão de candidaturas. O deputado afro-cubano Salvador Valdés Mesa foi apresentado como candidato para ocupar a primeira vice-presidência, cargo atual de Díaz-Canel.

A assembleia também votará nesta quarta-feira, 18, a eleição de outros cinco vice-presidentes, um secretário e os 23 membros do Conselho de Estado. O resultado oficial deve ser divulgado na quinta-feira, segundo a imprensa oficial cubana.

Díaz-Canel, que completa 58 anos na sexta-feira, será o primeiro sem o sobrenome Castro a ocupar o maior cargo do país desde a revolução de 1959, liderada por Fidel Castro e seu irmão mais novo, Raúl.

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Ele vai enfrentar uma economia estagnada, infraestrutura decadente, uma administração americana hostil e o desencantamento generalizado com um sistema planejado de maneira central e que não pode fornecer aos funcionários públicos um salário suficiente, mas que proíbe a maior parte das iniciativas privadas.

Raúl Castro vai permanecer como primeiro secretário do Partido Comunista, uma posição potencialmente mais poderosa. E considerando que o poder na Cuba comunista é focado há tempos em personalidades, e não em instituições, o poder de influência que Díaz-Canel realmente terá ainda é desconhecido. Muitos observadores olham para seu passado em busca de pistas.

A maioria dos cubanos conhece seu vice-presidente como um exímio orador, que inicialmente assumiu um papel tão discreto que era virtualmente inexistente. Até março, Díaz-Canel não havia dito nada ao povo cubano sobre que tipo de presidente seria. Sua declaração de maior duração veio do um vídeo vazado de uma reunião do Partido Comunista, quando ele se comprometeu a fechar alguns meios de comunicação independentes e declarou que algumas embaixadas europeias eram postos avançados de subversão.

Sua imagem discreta começou a mudar um pouco neste ano, quando Díaz-Canel entrou em cena através dos holofotes moderados que a mídia estatal oferece, no estilo soviético. Com seus comentários em março, o povo cubano teve o vislumbre de um político local ativo, uma imagem familiar aos residentes da província central do país, onde ele nasceu e passou nove anos ocupando um cargo semelhante ao de governador.

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Criado e educado na cidade de Santa Clara, Díaz-Canel se formou na universidade local em 1982 e cumpriu três anos de serviço militar obrigatório. Em 1987, se juntou à União Comunista Jovem e começou a trabalhar como professor de engenharia na Universidade de Santa Clara. Ele também viajou à Nicarágua como parte de uma missão do governo para apoiar a revolução socialista naquele país.

Os moradores de Santa Clara se lembram dele de cabelos longos e como um grande fã dos Beatles, que eram desaprovados por comunistas fervorosos que consideravam a banda como representativa da cultura decadente dos inimigos capitalistas de Cuba. No entanto, o jovem professor foi nomeado o primeiro secretário do partido na província de Villa Clara, em 1994, e fez sua reputação como um servidor público que trabalhava arduamente e tinha um estilo de vida modesto.

Residentes contam que Díaz-Canel foi o primeiro funcionário que se lembram que não mudou para uma casa fornecida pelo governo depois de aceitar a posição de primeiro secretário. "Ele nem reformou sua casa para que ficasse mais confortável", disse o vizinho Roberto Suárez Tagle, de 78 anos. "Ele sempre apurava os problemas reais que as pessoas tinham."

Díaz-Canel se locomovia pela cidade de bicicleta durante a crise econômica gerada pela queda da União Soviética, que cortou os subsídios a Cuba, e aceitou visitas dos moradores que tinham reclamações ou sugestões em sua casa e escritório a qualquer hora.

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Quando saía do trabalho, contam os moradores, ele começava seus turnos no Comitê para a Defesa da Revolução, um misto de grupo de vigilância do bairro e milícia local. "Alguns camaradas não queriam colocá-lo na vigilância, porque ficaria sobrecarregado com o trabalho, mas ele dizia 'Eu sou um cidadão deste país e ficarei de pé como qualquer outra pessoa'", contou Liliana Perez, cuja casa fica de frente à que Díaz-Canel morava com a esposa e os dois filhos.

Em 1996, ele começou a aparecer em um programa de rádio local, durante o qual passava duas horas recebendo telefonemas de pessoas reclamando de problemas que iam desde restaurantes estatais até ruas laterais esburacadas, disse o radiojornalista Xiomara Rodríguez. "Ele empreendeu um esforço intenso para se comunicar com o povo", relembra.

Num país onde o Estado controla a maior parte das atividades diárias, Díaz-Canel também fez visitas surpresa a estabelecimentos estatais, como a funerária local, para checar a qualidade dos serviços. "Ele se concentrou em criar uma cultura de atenção ao detalhe", disse Rodríguez.

Díaz-Canel também ficou conhecido por lutar contra as tendências de intolerância do Partido Comunista, uma organização com raízes de profundo conservadorismo social e conformidade. Como primeiro secretário de Villa Clara, ele foi um apoiador do El Menjunje, um centro cultural que abrigava shows de rock e se tornou um foco para atividades de cubanas lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, além de ter sido o palco de alguns dos primeiros shows de drag queens no país.

Díaz-Canel levava suas crianças ao clube, uma afirmação incomum de apoio numa sociedade profundamente enraizada na antipatia contra homossexuais. Dois dos filhos de Díaz-Canel passaram a tocar na Polaroid, uma conhecida banda de rock cubana.

"Díaz-Canel ouve e anota as opiniões dos outros", disse Ramón Silverio Gómez, diretor do El Menjunje há muito tempo. "As pessoas o respeitam e sabem que ele as entende." Em 2003, Díaz-Canel foi nomeado primeiro secretário da província de Holguin, no leste do país, onde enfrentou reclamações. Alguns dizem que ele concentrou muito dos seus seis anos no cargo no embelezamento do centro da cidade, enquanto negligenciou as necessidades dos pobres e trabalhadores.

Em 2003, Díaz-Canel também foi nomeado ao Politburo do Partido Comunista, um de seus quadros mais altos. Seis anos depois, foi nomeado ministro do ensino superior e elogiado pela modernização do currículo e introdução da tecnologia da computação nos programas de muitas universidades.

Ele também é conhecido como um dos primeiros funcionários de alto escalão a levar um laptop às reuniões de governo. Em 2012, conservadores do Partido Comunista fecharam o blog Cuba Jovem, mantido por acadêmicos da Universidade de Matanzas, que apoiavam o sistema socialista cubano, mas criticavam a corrupção, ineficiência e resistência à mudança.

Díaz-Canel convocou uma reunião entre o reitor da universidade e os fundadores do blog e os perguntou "O que vocês precisam para continuar mantendo o Cuba Jovem?", relembrou um dos fundadores do blog, Harold Cárdenas, um jovem professor de estudos marxistas. O blog então foi desbloqueado e continua sendo um importante fórum de debate entre intelectuais cubanos que pedem uma reforma gradual.

"Eu converso com Díaz-Canel como se ele fosse um tio meu", diz Cárdenas. "Ele é muito mais comunicativo do que parece."

Díaz-Carnel também interveio quando um funcionário público negou uma permissão de viagem aos Estados Unidos a Humberto Ríos Labrada, um especialista em agricultura sustentável que ganhou o prêmio americano da Goldman Environmental, disse Gregory Biniowski, advogado canadense que mora em Cuba e indicou Ríos para receber a homenagem.

Como vice-presidente, ele ficou fora dos holofotes, mas observadores veem isso como uma estratégia sábia para a sobrevivência dentro de um sistema administrado por revolucionários que estão envelhecendo e que acabaram com as carreiras de muitos políticos jovens que ganharam proeminência.

Excluindo algumas bases de apoio, no entanto, Díaz-Canel não terá mais a boa vontade dos eleitores em momentos de dificuldade ou conflito. "Não será mais suficiente ler os documentos escritos e aprovados pelo partido. Ele terá que expressar ideias", disse José Raúl Viera Linares, ex-vice-ministro de Relações Exteriores. "Não é mais suficiente ser um administrador. Inevitavelmente ele terá que evoluir e se tornar um líder". / AFP e AP

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