REUTERS/Aly Song
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Diferença na Ásia foi governo e população atuarem juntos contra Covid-19, diz especialista

Para Fausto Godoy, ex-embaixador do Brasil em países da Ásia, redução de casos na China se deve muito ao comportamento dos cidadãos

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 05h00

Países da Ásia começaram a registrar dados que podem significar o controle da disseminação do novo coronavírus. Entre a quarta-feira, 18, e a quinta-feira, 19, a China não registrou nenhuma transmissão doméstica da doença - o que não ocorria desde dezembro, quando o vírus emergiu, informou a Comissão Nacional de Saúde.

Pequim registrou 34 casos da Covid-19 nessas 24 horas, mas todos “importados, de pessoas que estavam fora da China e voltaram ao país. Além disso, um dado que anima é que em Wuhan, onde se deu o início da doença, nenhum caso foi reportado no período.

Para Fausto Godoy, ex-embaixador no Brasil em países da Ásia e coordenador do Núcleo de Estudos Asiáticos da ESPM, a reação chinesa se deve muito ao comportamento da população. “O pensamentos asiático se resume em ‘estamos com um problema, vamos resolver juntos’. Governo e população atuaram juntos e isso faz uma diferença brutal”, afirma.

Na quarta-feira, o Japão reportou três novos casos da Covid-19, mas em Hokkaido, a região até então mais afetada com 154 casos, o estado de emergência que vigorava desde fevereiro foi retirado porque o momento de disseminação da doença parece ter passado.

Cingapura e Coreia do Sul também registraram diminuição da disseminação do novo coronavírus. Em Singapura, nas 24 horas citadas, foram 47 novos casos, sendo 33 de pessoas que retornaram ao país. No caso da Coreia do Sul, foram 152 novos casos, mas ainda não se sabe quantos desses foram de pessoas que retornaram ao país. 

“Na Ásia em geral, o ser humano só se realiza em sociedade, ou seja, temos valor quando agregamos algo à sociedade. Esse é um conceito fundamental para entender a reação dos asiáticos ao coronavírus”, comenta Godoy. 

Pandemia

No fim de 2019, a epidemia surgiu na China e começou a se espalhar pela Ásia, em seguida pela Europa e Américas, com mais de 200 mil casos e 9 mil mortes em todo o mundo. Com o avanço rápido da doença, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou que o caso se tornava uma pandemia, ou seja, com alcance global. 

Inicialmente, a China negou que houvesse uma epidemia. A polícia de Wuhan, inclusive, advertiu Li Wenliang, médico que havia alertado sobre a escalada da doença e cuja morte, em fevereiro, provocou a revolta da população local.

Mas logo o país mudou a estratégia, reconheceu a situação grave e adotou medidas extremas: confinamento em larga escala e criação de centros de saúde para atender apenas os suspeitos de portarem a Covid-19. Em 29 de fevereiro, a China tinha 79.394 casos confirmados e 2.838 mortes, a maioria dos quais em Wuhan. Agora, segundo a Comissão Nacional de Saúde, a China tem 7.263 pacientes internados. 

“A China tomou uma atitude muito diferente do que com o Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave, que causou um surto de pneumonia entre 2002 e 2003) . Na ocasião, o país dizia que não tinha culpa e escondia tudo. Agora, quando a coisa explodiu na China, a atitude foi diferente. O país está mandando especialistas para a Itália, por exemplo. Os chineses fecharam uma cidade e estão saindo cedo dessa crise”, diz Fausto Godoy, da ESPM. 

Agora, alguns moradores de Wuhan que ficaram seis semanas dentro de casa começam a receber autorização para sair, contanto que apenas em grupos pequenos. Alguns comércios também já foram autorizados a voltar a funcionar. “Enquanto nós aqui vemos a relação dentro da sociedade com foco no indivíduo, ou seja ‘o meu direito vai até onde começa o seu’, essa diferença entre o ‘eu’ e ‘o outro’ não existe na Ásia”, afirma Godoy. 

 

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