ANGELOS TZORTZINIS/AFP
ANGELOS TZORTZINIS/AFP

Diferenças sociais se repetem nos barcos de imigrantes

Quem tem dinheiro, paga para ficar no deck, parte mais segura, enquanto os outros se espremem nos porões sem oxigênio

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL, PASSAU, ALEMANHA, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 20h27

Os barcos de imigrantes que chegam diariamente à Europa são retratos de uma crise profunda, mas também espelhos sociais. Refugiados que sobreviveram ao Mar Mediterrâneo contaram ao Estado que nos barcos são repetidas as diferenças de terra: os mais ricos vão em locais mais seguros – como no deck – e os mais pobres vão nos porões.

O Estado falou com eritreus, que chegaram em barcos saídos da Líbia e, após um longo trajeto, estavam na Alemanha esperando status de refugiados.

Apesar de a imagem de pessoas amontoadas nos barcos parecer não distinguir pessoas, Kosay Abraham conta que a realidade é outra para os passageiros. “Brancos e ricos vão na parte de cima. No porão, os negros e pobres”, disse.

Ele passou quatro dias no mar em 2014. “Conheci uma pessoa num café em Trípoli e acertamos um preço”, disse o africano que já havia cruzado o Saara em um caminhão, saindo da Eritreia. Num total, mais de 5 mil quilômetros percorridos em cinco meses para se juntar à mulher e à família dela, que já estavam na Europa. 

Para ele, o pior trecho foi o mar. “Eu só tinha 1 mil euros e disseram que isso só me dava direito de ficar no porão. Fui jogado lá e fiquei sentado sobre a gasolina por quatro dias, sem se mexer, sem comer, sem nada”, disse. “Em meu barco, éramos 300 pessoas, 95 morreram”, disse. No deck do barco, o preço era 3 mil euros. “Só havia árabes em cima. No porão, só africanos.” 

Hadra Denii diz que até se sente mal quando lembra da viagem. Seu barco também saiu da Líbia. Mas, antes, os traficantes a levaram a uma casa com dezenas de outras pessoas. “Éramos espancados por qualquer motivo. Eu levei um tapa por falar com minha vizinha e por três dias não consegui ouvir bem.”

Uma vez no barco, a viagem virou um pesadelo quando o motor quebrou no oceano. “Por sete horas, ficamos à deriva, balançando de um lado para o outro. Eu tinha certeza de que aquele era o meu fim. As pessoas já rezavam como se estivessem se despedindo da vida. Alguns tiveram alucinações.” 

Semret Medhane chegou na Alemanha há um ano. Mas admite que continua tendo pesadelos pela noite. “Ainda continuo sonhando com o balanço do barco”, disse. 

Todos, porém, abrem um sorriso quando a pergunta se refere ao futuro – os planosm, em geral, são estudar, trabalhar e construir uma família.

Kosay insiste que não quer perder tempo. Sua mulher acaba de ter uma filha. O nome escolhido para a criança não provocou debate na família, Hiwet, ou “vida” em tigrinya, o idioma da Eritreia.

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