Dificuldade de integração e a opção do terrorismo

Para especialista, a conversão a uma forma conservadora do Islã ou o martírio se tornam, às vezes, uma alternativa para jovens imigrantes sem rumo e perdidos no Ocidente

John Kass, do Chicago Tribune*,

12 de maio de 2013 | 02h02

Se você é filho de imigrantes, como eu, ou se é um imigrante que veio para os EUA quando criança, sabe o que significa ter um pé no velho mundo e o outro no novo, nesta assombrosa e às vezes assustadora cultura americana da liberdade.

Alguns de vocês sabem o que significa estar perdido, às vezes por um breve momento, desesperado pela América, desesperado por ser aceitos, na esperança de tornar-se parte deste lugar e de consolar-se idealizando os velhos costumes conhecidos, na maior parte em histórias contadas à mesa do jantar.

No começo, talvez as famílias de imigrantes não se sintam completamente americanas, mas quando viajam ao exterior ou atravessam as fronteiras da terra de seus ancestrais, como são chamadas? Americanos.

No entanto, e os que não se integram ou que não conseguem, como os irmãos Tsarnaev - Tamerlan, que morreu, e o caçula Dzhokhar -, supostamente responsáveis pelos ataques da Maratona de Boston? E os que não conseguem se adaptar à nossa cultura americana e começam a se distanciar, desesperados por culpar alguém que não eles próprios? Eles são vulneráveis, desejam avidamente pertencer a algo, estão prontos para sugestões e esse anseio os torna alvos úteis de homens maus.

"É um problema típico dos imigrantes", disse a especialista em terrorismo Anne Speckhard. "Eles são essencialmente divididos - a parte que pertence ao seu país antigo e a que pertence a este."

Speckhard é professora de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Georgetown, dá palestras para especialistas em defesa da ordem e em contraterrorismo, trabalha para a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e estuda o distúrbio do estresse pós-traumático e os fatores que levam ao recrutamento de terroristas.

Ela é também a autora do livro Talking to Terrorists: Understanding the Psycho-Social Motivations of Militant Jihadi Terrorists, Mass Hostage Takers, Suicide Bombers & Martyrs, para o qual fez mais de 400 entrevistas com terroristas, suas famílias, amigos e até mesmo se hospedou em algumas de suas casas.

Ela estudou a mente do terrorista na maior parte da sua vida e eu quis me informar mais a respeito de como jovens crescidos em sociedades livres se tornam vulneráveis ao recrutamento e à radicalização.

Vulnerabilidades. Assim como muitos de nós, ela ficou fascinada pelos irmãos Tsarnaev, particularmente desde que trabalhou com imigrantes muçulmanos da segunda geração na Europa e acompanhou os problemas que essas pessoas tiveram em relação à assimilação.

"Na Europa, as pessoas são muito mais vulneráveis à jihad militante, pois, de algum modo, a integração é muito mais difícil", disse. "Aqui, dificilmente veríamos isso. O que vimos no caso de Tamerlan é que um jovem que saiu de uma cultura islâmica conservadora, que começa a ir em festas e a usar drogas aqui no Ocidente, corre o risco de se tornar o que chamam de 'reconvertido', a pessoa que volta para a antiga fé.

"É quase como se ele buscasse sua identidade convertendo-se a uma forma conservadora do Islã", disse. "É muito triste pensar que há tantos jovens que são sugados para esse tipo de coisa, mas é assim que esses grupos (terroristas) e essas ideologias funcionam. Eles exploram suas ansiedades e vulnerabilidades."

Sem rumo. Por favor, entendam que eu não estou dizendo que os jovens imigrantes ou filhos de imigrantes se tornam terroristas. Eu mesmo sou filho de imigrante. E não estou justificando os Tsarnaev. Eles foram bem recebidos aqui; a América os alimentou e lhes deu um abrigo à custa dos contribuintes e eles retribuíram a nossa hospitalidade com o assassinato e o horror. Não tenho pena deles, mas quero compreender o que os tornou assim.

Não é o caso de utilizar caracterizações simplórias. Culpar a oração e a religião pode oferecer respostas politicamente convenientes, mas isso não lança luz sobre um problema perigoso com o qual teremos de lidar, aqui e na Europa, nos próximos anos.

Para que um imigrante se torne verdadeiramente americano, ele precisará assimilar a cultura americana. Quando eu era criança, meu pai, imigrante grego, reforçou as maravilhosas liberdades que encontrou aqui. Ele e minha mãe fizeram questão que falássemos inglês em casa.

Insistiram que respeitássemos as tradições familiares, culturais e religiosas, mas também que nos abríssemos para o país e o assimilássemos.

Por isso, praticávamos os esportes americanos, beisebol, futebol e os jogávamos desesperadamente. Por amor ao jogo, é claro, mas também para nos sentirmos aceitos, na esperança de nos tornarmos parte dessa nova tribo, para nos tornarmos de fato americanos.

E os que se perderam nesta nova terra? Eles são vulneráveis. Em alguns casos, o martírio islâmico oferece uma saída, particularmente para os que acham que podem se redimir e se purificar pela violência.

Speckhard falou de um jovem que ela entrevistou anos atrás. "Conheci na Grã-Bretanha um jovem, filho de imigrantes da Caxemira, que me contou que queria morrer como um mártir, mas não pretendia atacar a Grã-Bretanha. Ele tinha a cidadania britânica." "No entanto, ele pretendia definitivamente acabar com sua vida combatendo na jihad. Continuamos conversando e, finalmente, eu falei: 'Por acaso você cometeu algum terrível pecado na sua vida cujo peso o oprime muito?' " "Ele disse que sim."

Razões econômicas. De acordo com Speckhard, o problema está crescendo na zona do euro, na qual vive uma grande população muçulmana e está implodindo do ponto de vista econômico, favorecendo a ascensão do nacionalismo étnico.

"Em geral, os primeiros a ficar desempregados são os imigrantes. às vezes, eles nem conseguem se empregar", disse ela. "E os países europeus têm uma grande diáspora muçulmana. Será interessante ver o que acontecerá." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA   * É colunista

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