Digam se isso poderá acabar bem

O Egito, que tem 25% de analfabetos, vai enviar tropas para derrotar rebeldes no Iêmen, onde só há água 36 horas por mês

THOMAS L., FRIEDMAN, , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2015 | 02h00

Na semana passada, estive na China. É sempre instrutivo ver o mundo desde o Reino do Meio. Às vezes, a percepção mais correta vem da simples leitura dos jornais locais. No dia 25, o China Daily publicou um artigo narrando com detalhes que as "autoridades de Pequim" realizaram, esta semana, inspeções em jardins da infância para verificar se as crianças não estavam sobrecarregadas com trabalho escolar. Embora chinês, matemática e inglês devam ser ensinados somente na escola primária, não é incomum ver crianças da pré-escola na China obrigadas a estudar essas matérias.

O artigo explicava por que não é saudável "começar a preparar o vestibular para o ingresso na universidade" já na pré-escola.

Ao ler isso, de repente, tive a visão de uma equipe da SWAT do Ministério da Educação da China irrompendo porta adentro nos jardins de infância declarando: "Larguem lápis e livros. Afastem-se das carteiras e ninguém se machucará." Que problema. Jardins da infância ensinando matemática e inglês cedo demais.

No mesmo jornal, havia outro artigo sobre os mais recentes conflitos entre facções xiitas pró-iranianas e sunitas pró-sauditas. Os combates tinham como alvo a segunda maior cidade do Iêmen, Taiz. Estive em Taiz em maio de 2013 trabalhando num documentário sobre o desastre ambiental que o Iêmen estava se tornando. Escolhemos Taiz porque, em razão da devastação do ecossistema do país, os habitantes da cidade só têm água nas torneiras de suas casas por 36 horas a cada 30 dias, mais ou menos.

É isso aí. As notícias sobre a China falam da invasão de jardins da infância que ensinam matemática e inglês muito cedo e as notícias do Iêmen falam das facções sunitas e xiitas que lutam por uma cidade já tão destruída que a água aparece apenas 36 horas por mês, e no restante do tempo as pessoas dependem de caminhões-pipa. E isso ocorria antes dos últimos confrontos.

Mas pelo menos detectamos o problema. Li que a culpa disso é do presidente Barack Obama. Gostaria que fosse assim. Obama disse e fez algumas coisas estúpidas no Oriente Médio (como permitir que o regime líbio ficasse acéfalo sem um plano para o dia seguinte), menos o fato de mostrar-se cauteloso e não se envolver na região. Aqui estamos lidando com algo que nenhum presidente teve de encarar: o colapso do Estado árabe depois de 70 anos de governança incompetente.

A comparação com a Ásia é instrutiva. Depois da 2.ª Guerra, a Ásia foi governada por muitos autocratas que se dirigiram a seus governados dizendo: "Tiraremos sua liberdade, mas em troca daremos a vocês a melhor educação, a infraestrutura e as mais apuradas políticas de crescimento com base na exportação que o dinheiro puder comprar. E vocês construirão uma grande classe média e conquistarão sua liberdade." No mesmo período, os autocratas árabes dirigiram-se a seus governados dizendo: "Tiraremos a sua liberdade e em troca daremos a vocês o conflito árabe-israelense".

Os autocratas asiáticos eram em geral modernizadores, como Lee Kuan Yew, que morreu na semana passada aos 91 anos - e hoje podemos ver os resultados: os habitantes de Cingapura esperando dez horas na fila para prestar as últimas homenagens a um homem que os lançou do nada para a classe média global.

Os autocratas árabes eram em geral predadores e usaram o conflito com Israel como um brinquedo reluzente para distrair o povo de sua péssima governança. Como resultado, Líbia, Iêmen, Síria e Iraque agora se tornaram áreas de catástrofe em termos de desenvolvimento humano.

Alguns previram que isso aconteceria. Em 2002, um grupo de cientistas sociais árabes elaborou o Relatório sobre Desenvolvimento Humano Árabe para a ONU. O documento dizia que o mundo árabe sofria com a falta de liberdade, conhecimento e autodeterminação das mulheres e, se essa situação não mudasse, levaria ao que ocorreu depois. O relatório foi ignorado pela Liga Árabe. Em 2011, as populações árabes mais preparadas levantaram-se para obrigar a uma mudança antes que a situação chegasse ao eventual desastre. Com a exceção da Tunísia - o único país árabe cujo autocrata era também um modernizador -, esse despertar se apagou. Por isso, agora, aqueles países chegaram ao ponto em que chegaram: o colapso do Estado e um caldeirão de guerras civis tribais, sectárias (xiita-sunita, persa-árabe) - numa região em que o desemprego é calamitoso, a juventude está revoltada e as escolas mal funcionam ou, quando funcionam, ensinam um excesso de religião, não de matemática.

Li a recente declaração do presidente do Egito, Abdel-Fattah al-Sissi, que dizia: "Os desafios que a segurança das nações árabes enfrentam são enormes e nós conseguimos diagnosticar as causas dessa situação". Ou seja, a insuficiente cooperação árabe contra os persas e os radicais islâmicos.

Será mesmo? Hoje, cerca de 25% dos egípcios são analfabetos, depois dos US$ 50 bilhões da ajuda injetados pelos Estados Unidos desde 1979. Na China, o analfabetismo é de 5%. No Irã, 15%. Minha simpatia vai para todo o povo dessa região. Mas quando seus líderes desperdiçam 70 anos, o buraco é mesmo muito fundo.

Na realidade, Sissi tenta pôr ordem no Egito. No entanto, o Egito poderá enviar tropas para derrotar os rebeldes no Iêmen. Caso aconteça, esse será o primeiro caso de um país em que 25% da população não sabe ler que envia suas tropas para salvar um país em que a água só sai da torneira 36 horas por mês para acabar com uma guerra cuja razão essencial é a luta iniciada no século 7 para decidir quem seriam os verdadeiros herdeiros do profeta Maomé - se os xiitas ou os sunitas. Qualquer criancinha da pré-escola chinesa sabe: essa não é uma fórmula para o sucesso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA, ESCRITOR E PRÊMIO PULITZER

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