Tasos Katopodis/Getty Images/AFP
Tasos Katopodis/Getty Images/AFP
Imagem Moisés Naím
Colunista
Moisés Naím
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Dilema de Joe Biden: buscar paz ou Justiça?

Biden é um político de grande experiência e conhece a árdua tarefa de unir os compatriotas

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 05h18

Susan Bro encarna o dilema que pode definir o governo de Joe Biden: Pode haver paz social sem que haja justiça? Bro é a mãe de Heather Heyer, que em 2017, aos 32 anos, foi assassinada em Charlottesville, capital do Estado de Virginia, por James Alex Fields, um ativista de extrema direita.

Com o seu automóvel, Fields atropelou deliberadamente um grupo de pessoas que protestavam pacificamente contra uma marcha de neonazistas e supremacistas brancos, vindos a Charlottesville de todo o país.

Como é notório, ao comentar esses fatos trágicos, o presidente Donald Trump realçou que havia muita boa gente de ambos os lados do protesto. Joe Biden afirmou que o que aconteceu em Charlottesville foi determinante para sua decisão de se candidatar à presidência.

Susan Bro está preocupada com a possibilidade de que, buscando a unidade, Joe Biden esteja disposto a sacrificar a justiça. “Sanar as feridas causadas por esse tipo de ato exige que os que as cometem sejam responsabilizados e condenados. A união exige justiça”, declarou Bro ao jornal The New York Times. 

Biden oferece outra perspectiva. “Podemos unir forças, deixar de gritar e baixar a temperatura. Sem unidade não pode haver paz, somente fúria e amargura”, afirmou. A lista de emergências às quais deve atender o novo presidente é impressionante. A pandemia, suas catastróficas consequências econômicas, a mudança climática, uma sociedade profundamente desigual e polarizada, e dezenas de crises internacionais, são apenas alguns dos problemas urgentes que o governo de Biden terá de enfrentar. 

Se responder com eficiência a apenas um destes desafios é imensamente difícil, enfrentar todos simultaneamente é uma tarefa titânica. Mas não há alternativa: as ameaças estão ali, elas foram se agravando e exigem atenção imediata. Biden diagnosticou corretamente que o progresso na luta contra qualquer uma destas ameaças depende de que arrefeça as divisões que agora fragmentam seu país e bloqueiam a tomada das importantes decisões que o país requer. A unidade foi o tema ao qual o presidente Biden dedicou o seu discurso de posse e é a aspiração que ele reitera cada vez que se dirige à nação. 

Biden é um político de grande experiência e conhece a árdua tarefa de unir seus compatriotas e promover a harmonia. Ele sabe que, embora 82 milhões de americanos tenham votado nele (ou contra Trump), outros 74 milhões votaram em Trump (ou contra o atual presidente). Biden também sabe que a cerimônia que marcou o início da sua presidência ocorreu nas escadarias do Capitólio, o lugar exato de onde a multidão violenta instigada por Donald Trump invadiu e saqueou os escritórios do Poder Legislativo. Por outro lado, é preciso levar em conta que mais de um terço dos americanos acredita que ele é um presidente ilegítimo. 

Diante de tudo isto, a unidade nacional proposta por Biden é, ao mesmo tempo, um requisito indispensável e uma tarefa cujo sucesso nunca será completo. As manifestações da tensão entre paz e justiça já irromperam no debate político de Washington. Apenas um dia após o início do governo Biden, e como reação à decisão de proceder com o julgamento do impeachment de Donald Trump, o senador republicano Ted Cruz instou os líderes do Partido Democrata a deixarem de lado o que descreveu como “seu ódio partidário por Donald Trump” e acrescentou: “Parece que os senadores democratas querem inaugurar a temporada legislativa com um julgamento que é um ato punitivo e vingativo”.

No mesmo dia, um jornalista perguntou a Nancy Pelosi, líder do Partido Democrata na Câmara, se julgar Donald Trump não contradizia o desejo de unificação do país. “O fato é que, sendo presidente dos Estados Unidos, ele incitou uma insurreição”, respondeu Pelosi e acrescentou: “Eu não creio que seja muito unificador dizer simplesmente ‘vamos esquecer o que aconteceu e sigamos em frente’. Não é esta a maneira de unir país. É nossa responsabilidade proteger e defender a Constituição, e é o que vamos fazer”.

Referindo-se a Trump, a líder democrata afirmou: “Não podemos dizer a um presidente: ‘Faça o que quiser nos seus últimos meses de governo e não se preocupe com as consequências porque poderá sair do cargo sem problemas’. Há quem nos peça que esqueçamos dos que morreram aqui no dia 6 de janeiro e as tentativas de anular os resultados das eleições, de solapar a nossa democracia e de violar a nossa Constituição. Não vejo as coisas desse modo. Acredito que ignorar o que aconteceu ameaçaria a união”.

O debate sobre paz versus justiça não é novo nos Estados Unidos nem no resto do mundo. De fato, é frequente encontrá-lo em muitas das sociedades que começam a se recuperar de prolongados períodos de violência e de maciça violação dos direitos humanos. Não é este o caso dos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.