Dilema deixa Obama moralmente acuado

O presidente democrata, progressista e de raízes islâmicas está cedendo à pressão conservadora americana e dando mais um ponto ao terrorismo

MAUREEN DOWD, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Talvez, para Barack Obama, tudo dependa do significado da palavra "é". Quando o presidente voltou atrás de sua grandiosa declaração no "iftar", o jantar oferecido para celebrar o término do Ramadã, na Casa Branca, na sexta-feira, quando disse que, nos EUA, os muçulmanos têm liberdade de praticar sua religião e têm o direito de construir uma mesquita e um centro comunitário na Baixa Manhattan, fez uma análise gramatical da coisa.

"Eu não estava comentando, e não quero comentar, a sensatez de decidir construir uma mesquita nesse lugar", afirmou na manhã depois de ter comentado a sensatez de decidir construir uma mesquita nesse lugar. "Estava comentando muito especificamente um direito da pessoa que data da nossa fundação. É isso que nosso país defende."

Deixe-me esclarecer: o senhor não pode adotar uma posição de princípio e depois voltar atrás na manhã seguinte quando, veja só, Harry Reid (líder da maioria no Senado) diz discordar da sua opinião e os republicanos partem para o ataque.

Afinal, o que a Fox News tem de tão assustador? Alguns críticos disseram que para Osama bin Laden e os sequestradores do 11 de Setembro a maior vitória seria permitir a construção de uma mesquita perto do Marco Zero.

Na realidade, a maior vitória deles é a timidez moral que poderia proibir a construção de uma mesquita naquela região. Nossos inimigos nos atingiram no coração, mas será que também feriram nossa identidade? A guerra contra o terrorismo não é uma guerra contra o Islã. Na realidade, não é possível travar uma guerra efetiva contra o terrorismo se esta guerra for travada contra o Islã.

George W. Bush compreendeu isso. E é estranho constatar que Obama tem menos clareza a este respeito do que seu predecessor. Está na hora de Bush dar novamente sua opinião.

Este - assim como a reforma da imigração e a aids na África - foi um de seus pontos luminosos. E o homem que por duas vezes declarou guerra ao mundo muçulmano, tem de certo modo a obrigação de acrescentar sua anti-islamofobia a esta loucura da mesquita. George Bush precisa pegar novamente no megafone.

Bill Clinton e Obama são dois professores de Direito extremamente articulados. Mas Clinton nunca se apresentou como guia moral para o país. Portanto, quando preferia ver os outros se digladiando, ou procurava se esquivar a respeito de alguma questão, isso fazia parte de sua personalidade e era uma atitude coerente com sua identidade de Novo Democrata em busca de uma Terceira Via.

Mas Obama se apresenta como o defensor dos mais altos princípios. Portanto, quando falha em coisas como "não perguntem, não falem" ou recua a respeito de uma de suas mais profundas convicções sobre a liberdade de culto nos EUA, isto não lhe cai bem. Paranoico, temendo parecer fraco, Obama permitiu que a histeria republicana perfeitamente previsível o enfraquecesse. O que nos leva a Newt Gingrich. Gingrich se considera um intelectual, um historiador, um profundo pensador - o oposto, poderíamos dizer, de Sarah Palin.

Entretanto, Gingrich tenta superar a própria Palin na Fox News: "Os nazistas não têm o direito de levantar uma tabuleta perto do Museu do Holocausto em Washington." Não há analogia demagógica maior do que esta.

Será que alguns dos críticos que esbravejavam observaram que já existem duas mesquitas no mesmo bairro - uma a quatro quadras e outra a 12 quadras de distância? Deverão ser derrubadas? E que tal as lojas de bebidas suspeitas e os clubes de strip-tease na periferia desta área sagrada? É preciso fingir-se de cego para não saber que o imã encarregado do projeto, Feisal Abdul Rauf, é o muçulmano moderado que presumivelmente esperávamos.

O progressista da Casa Branca, o primeiro presidente dos EUA de raízes islâmicas, foi moralmente batido pelo prefeito Michael Bloomberg e pelo governador Chris Christie, de New Jersey, que falaram bravamente e com lucidez que não é preciso demonizar e caluniar toda uma religião em nome da luta contra seus elementos mais radicais.

Christie disse que compreende a dor do 11 de Setembro, mas "não se pode pintar todo o Islã com estas tintas". Ele acusou Obama de tentar transformar a questão num futebol político. E, nesse jogo, o presidente demonstrou pouca habilidade. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É ESCRITORA E COLUNISTA DE POLÍTICA

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