Islamic Emirate of Afghanistan / AFP
Islamic Emirate of Afghanistan / AFP

Dilema diplomático: Países devem reconhecer o Taleban como governo legítimo?; leia análise

Diplomatas e oficiais militares estão conversando com o Taleban sobre questões práticas em Cabul, mas reconhecimento de um governo Taleban passa por questões mais profundas

Steven Erlanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 20h00

O reconhecimento de uma autoridade revolucionária nunca é uma questão simples. Depois que os bolcheviques tomaram o poder na Rússia em 1917, demorou anos para que sua recém-criada União Soviética fosse reconhecida pelas nações ocidentais. Os Estados Unidos recusaram o reconhecimento até 1933.

Uma pergunta semelhante surge agora em Cabul. O Taleban assumiu o poder e anunciou que o Afeganistão deve ser novamente chamado de Emirado Islâmico do Afeganistão, como era quando o grupo fundamentalista governou o país pela última vez na década de 1990.

Mas o grupo ainda não formou um governo, e alguns esperam que qualquer outra autoridade que surgir no fragmentado Afeganistão tenha uma base mais ampla do que apenas o próprio Taleban.

Via de regra, governos falam com outros governos e, mais cedo ou mais tarde, eles se reconhecem. Por enquanto, porém, quando se trata do Afeganistão, os países ocidentais estão resistindo.

A questão do reconhecimento deve surgir quando o Reino Unido e os Estados Unidos sediarem uma reunião virtual dos líderes do G7, que deve ocorrer no início da próxima semana. Na quinta-feira, os chanceleres do grupo realizaram uma videoconferência para preparar o terreno para seus líderes, tendo a crise no Afeganistão como tema principal, e apelaram ao Taleban para respeitar os direitos humanos e proteger os civis.

No terreno em Cabul, diplomatas e oficiais militares estão conversando com o Taleban sobre questões práticas - como a tentativa de conseguir uma passagem segura até o aeroporto para pessoas que trabalharam com as forças ocidentais. E as Nações Unidas e algumas outras organizações não-governamentais continuam a trabalhar no Afeganistão, embora a ONU tenha transferido temporariamente alguns de seus funcionários.

Mas então há a questão da ajuda.

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Os Estados Unidos conseguiram que o Fundo Monetário Internacional suspendesse o pagamento de cerca de US$ 370 milhões (o equivalente a R$ 2,01 bilhões) destinados ao Afeganistão em 23 de agosto. O fundo citou a "falta de clareza dentro da comunidade internacional" sobre o reconhecimento de um governo no país.

A União Europeia também está suspendendo a ajuda ao desenvolvimento "até que esclareçamos a situação" com os líderes do Taleban, disse seu chefe de política externa, Josep Borrell, na terça-feira após uma reunião de ministros das Relações Exteriores dos países-membro da UE. A Alemanha também suspendeu os pagamentos de ajuda.

A Comissão Europeia prometeu cerca de € 1,2 bilhão (o equivalente a R$ 7,65 bilhões) em ajuda ao desenvolvimento para o Afeganistão para o período de 2021-24, e os Estados membros prometeram individualmente mais. O Reino Unido, por exemplo, diz que quer dobrar sua ajuda humanitária ao Afeganistão para 280 milhões de libras por ano, canalizada principalmente por meio de agências da ONU.

Veja o mapa do Afeganistão

Borrell disse da mesma forma que "a ajuda humanitária continuará e talvez tenhamos um aumento", dado o número de afegãos deslocados, uma seca em curso e o impacto da pandemia do coronavírus.

"O Taleban ganhou a guerra", disse ele. "Portanto, teremos que conversar com eles para estabelecer um diálogo o mais rápido possível para prevenir um desastre humanitário e um potencial desastre migratório."

As negociações também se concentrariam, disse Borrell, "nos meios para evitar o retorno de uma presença terrorista estrangeira no Afeganistão."

Mas ele insistiu que tais discussões seriam apenas sobre questões pragmáticas, e que o diálogo não implicava o reconhecimento formal do novo regime. "Lidaremos com as autoridades afegãs como elas são, ao mesmo tempo permanecendo naturalmente vigilantes quanto ao respeito às obrigações internacionais", disse.

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