Dilema entre segredo e transparência é desafio do futuro papa no Vaticano

VatiLeaks, escândalos financeiros e sexuais, pressão por mais informações e a lei do silêncio imposta aos cardeais revelam a falta de habilidade da Igreja em lidar com a opinião pública

Andrei Netto , enviado especial de O Estado de S. Paulo,

09 de março de 2013 | 21h27

ROMA - Não bastassem os escândalos financeiros e sexuais que abalaram a imagem da Igreja Católica na última década, o sucessor de Bento XVI terá de enfrentar um desafio cada vez mais importante em Roma: o da comunicação.

 

A disputa entre cardeais por mais transparência ou pela preservação da cultura do segredo que norteia até aqui a instituição ficou clara nessa semana, quando o Colégio Cardinalício impôs a seus membros a lei do silêncio em meio às reuniões pré-conclave, estrangulando – pelo menos por ora – o esforço de relações públicas empreendido por um grupo crescente no Vaticano.

 

O prenúncio da disputa por maior abertura da Cúria Romana foi o caso VatiLeaks, que trouxe a público durante o pontificado de Bento XVI informações sigilosas sobre corrupção e tráfico de influência na cúpula do poder. O vazamento teria sido para muitos um acerto de contas entre facções italianas, mas também uma demonstração de que a relação entre o Vaticano e seus fiéis não pode mais ser baseada na opacidade.

 

Apesar de sua repercussão negativa, o VatiLeaks não foi suficiente para convencer a maior parte dos cardeais sobre o problema. Há dez dias, os cardeais brasileiros d. Raymundo Damasceno e d. Geraldo Majella Agnelo vieram a público para fazer pressão pela revelação, nas reuniões pré-conclave, de detalhes de uma investigação sobre o VatiLeaks. O argumento era simples: para melhor escolher o papa, é preciso saber o que de fato se passa na Cúria Romana.

 

Outra iniciativa por mais transparência vinha sendo feita até a semana passada pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), que convocava entrevistas coletivas nas quais seus cardeais falavam – de forma superficial e sem violar segredos de Estado – sobre os principais temas discutidos nas congregações-gerais.

 

Nas entrevistas, cardeais como o americano Daniel DiNardo, arcebispo de Gavelston-Houston, no Texas, manifestavam preocupações quanto aos escândalos de pedofilia, sexo e corrupção no Vaticano. "Nós queremos saber o máximo possível sobre a governança na Igreja", disse na terça-feira, explicando que essas discussões estavam retardando o início do conclave.

 

As declarações, entretanto, geraram ciúmes e insatisfação entre cardeais mais conservadores. Na quarta-feira o Colégio Cardinalício impôs a lei do silêncio, fato confirmado em nota oficial pela diretora de Relações com a Mídia da USCCB, irmã Mary Ann Walsh. "Por causa das preocupações sobre relatos publicados pela imprensa italiana, o que quebrava a confidencialidade, o Colégio de Cardeais decidiu não conceder entrevistas."

 

Para alguns dos mais importantes vaticanistas e estudiosos da Igreja consultados pelo Estado desde então, o atrito revela a dificuldade de parte dos cardeais de se adaptar a um público que exige mais clareza nas informações e menos segredos – mesmo se tratando do Vaticano.

 

"O segredo não é apenas para a opinião pública, mas também dentro do colégio dos cardeais. Muitos, em especial os italianos, gostariam que as reuniões pré-conclave se passassem como sempre foram: em total segredo", diz Lucetta Scaraffia, vaticanista e historiadora da Universidade La Sapienza, de Roma.

 

"Agora há diversos grupos na Igreja interessados em levar à opinião pública o que se passa na Cúria Romana, e por isso há tantos vazamentos de informações. É uma forma de fazer pressão por mais esclarecimentos."

 

Tensão. Para Marco Tosatti, célebre especialista do blog Vatican Insider, as dificuldades em lidar com a mídia são tantas que mesmo as ações tomadas contra os escândalos acabaram pouco conhecidas do público. "Joseph Ratzinger fez um trabalho enorme de limpeza da Igreja, escolhendo bispos muito capazes e afastando outros no mundo inteiro", lembra. "Mas fez um pontificado muito duro, pouco midiático, muito trabalhoso e obscuro."

 

O problema da opacidade é tão central que, paradoxalmente, preocupa até os grupos mais secretos da Igreja. Desde 1990, o Opus Dei – uma das organizações historicamente mais conhecidas por seu culto ao sigilo – mantém em uma universidade pontifícia de Roma, a Santa Cruz, uma escola de comunicação da Igreja, em que oferece aulas de media training e gestão de crises de comunicação. Um de seus professores é o espanhol Manuel Sanchez Fandila, que reconhece o déficit de informação, mas lembra que Bento XVI o enfrentava.

 

Não à toa o papa foi objeto de quatro livros-entrevistas, realizados em longos encontros com jornalistas independentes. "Bento XVI dizia: o problema não está nos meios de comunicação, mas nos nossos pecados", lembra Fandila. "Temos de gerenciar melhor nossa postura em uma época de grande tensão informativa."

 

Para alguns, a abertura, ainda que difícil e lenta, está em curso. A existência de um twitter papal teria sido um esforço – para muitos artificial e próximo do fiasco – de se aproximar do público jovem. Outra medida foi tomada há três meses, quando o jornalista Greg Burke, ex-correspondente em Roma da rede de TV americana Fox News e da revista Time, e ex-professor da Santa Cruz, tornou-se conselheiro de comunicação do Vaticano. Falta agora doutrinar o futuro papa, para que ele não repita Bento XVI, que anunciou sua histórica renúncia em latim, uma língua morta.

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