Dilma diz a Cameron que intervenção agravaria crise global Brasil cobra Assad na ONU

Em Londres, brasileira rejeita argumentos do premiê britânico, que tenta obter apoio para atacar sírios e iranianos

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / LONDRES , LISANDRA PARAGUASSU , BRASÍLIA, JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / LONDRES , LISANDRA PARAGUASSU , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2012 | 03h03

A presidente Dilma Rousseff mandou ontem um alerta duro para o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron: qualquer intervenção militar, seja na Síria ou no Irã, fará o preço do petróleo explodir e prolongará a crise econômica mundial. O recado foi dado em uma reunião entre os dois chefes de governo em Londres. Segundo relato de um ministro que a acompanhava, Dilma disse que o governo Assad perdeu legitimidade.

Dilma reiterou a posição do Itamaraty e rejeitou qualquer ideia de militarização do conflito sírio ou intervenção que possa repetir os cenários de Iraque e de Afeganistão. Como o Estado antecipou na terça-feira, Cameron usou o encontro com Dilma para pedir o apoio do Brasil em sua campanha para isolar cada vez mais o regime de Bashar Assad na Síria e para pressionar o Irã.

Na avaliação dos britânicos, chegou o momento de o Conselho de Segurança da ONU aprovar uma resolução que determine sanções contra Assad. Londres vem liderando a campanha e assumindo o papel que tradicionalmente cabe aos EUA.

Em plena campanha presidencial, o presidente americano, Barack Obama, tem evitado levantar debates sobre eventuais intervenções militares. No entanto, China e Rússia rejeitam qualquer iniciativa nesse sentido e vem minando a ação dos britânicos. Ontem, Dilma foi clara. A situação da Síria é "preocupante", o Brasil condena a violência e admite que o país vive uma guerra civil, mas nada disso significa que a comunidade internacional deva adotar a mesma estratégia que aplicou no Iraque e no Afeganistão.

"A militarização não funciona", disse Antonio Patriota, chanceler brasileiro após o encontro. Ele admitiu, no entanto, que o Brasil está "preocupado" com o fato de o Conselho de Segurança não chegar a um consenso sobre como resolver a questão da Síria.

Na reunião, Cameron citou a situação do Irã. Uma vez mais, porém, Dilma rejeitou qualquer intervenção, alertando que o risco de um conflito regional teria um profundo impacto sobre os preços do petróleo e agravaria a crise econômica global.

Diplomacia. De acordo com Dilma, uma intervenção militar internacional na Síria ou no Irã prejudicaria os próprios esforços dos europeus para resgatar suas economias. A presidente defende o diálogo com Teerã e insiste que seu governo não apoiará jamais o uso de energia nuclear para fins militares.

A posição do Brasil, segundo Dilma, reflete a tentativa do País de mediar uma negociação com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, sobre o enriquecimento de urânio, feita em parceria com a Turquia, em 2010. Ela insiste que o diálogo é a única maneira de lidar com a situação do Irã.

O Brasil voltou a cobrar ontem o regime de Bashar Assad durante um debate sobre o Oriente Médio no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A embaixadora na ONU, Maria Luiza Viotti, pediu um cessar-fogo imediato e responsabilizou "primordialmente" o governo sírio pelo controle da violência, "repudiando" também os ataques da oposição à infraestrutura civil do país.

"Todas as partes devem cumprir suas obrigações para deter a violência, mas a responsabilidade primordial nessa questão cai sobre o governo da Síria", afirmou a embaixadora. "Também repudiamos ataques terroristas contra a infraestrutura civil", completou.

O Brasil defende uma saída negociada entre os próprios sírios como a única solução possível para os 17 meses de violência. Nas últimas semanas, em meio à rápida intensificação dos confrontos entre insurgentes e o regime, o governo brasileiro passou a usar palavras mais duras para criticar Assad.

Há cerca de uma semana, por exemplo, o Itamaraty soltou uma nota dizendo condenar "veementemente" o uso de armas pesadas contra civis e lembrando os compromissos que Assad havia assumido com o enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan.

O anúncio feito pelo governo sírio de que não apenas tem, mas pode usar armas químicas caso forças de outros países intervenham em seu território, preocupou o Itamaraty. Em seu discurso de ontem, Viotti lembrou que a Síria é signatária da Convenção sobre Armas Químicas e do Protocolo de Genebra de 1925, que vetam esse tipo armamento.

Ao lado da Síria, a situação dos palestinos também foi citada no discurso da embaixadora brasileira. Viotti chamou de "ilegais" e "ameaça à solução de dois Estados" os assentamentos israelenses e criticou a paralisia das negociações de paz. A embaixadora cobrou uma ação mais efetiva do Conselho de Segurança e pediu que os países-membros "exerçam suas responsabilidades".

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