Dilma e Unasul advertem Paraguai sobre sanções

Presidente lembra, antes da votação no Senado, que desligamento do país da união e do Mercosul está previsto em caso de ruptura democrática

TÂNIA MONTEIRO , ENVIADA ESPECIAL / RIO , ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h03

Com cuidado para que suas palavras não fossem interpretadas como ameaças, a presidente Dilma Rousseff disse em entrevista coletiva, no encerramento da Conferência Rio + 20, que o protocolo de criação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), assinado pelo Paraguai e outros 11 países da América do Sul, prevê o desligamento do país deste bloco e do Mercosul se ficar caracterizada a ruptura democrática.

As declarações foram dadas antes do desfecho do processo contra Lugo. Questionada sobre se o processo de impeachment de Lugo pode levar à expulsão do Paraguai por não respeitar as cláusulas democráticas, Dilma, disse que não queria raciocinar sobre hipótese, mas afirmou: "Posso dizer o que está previsto no protocolo que é a não participação nos órgãos multilaterais".

Na entrevista, Dilma advertiu que "a atitude dos 12 chanceleres (que viajaram na véspera para o Paraguai) e dos 12 países representam uma atitude de muito respeito à soberania do Paraguai, mas é também uma atitude de muito respeito pela democracia". E avisou: "Desta situação te asseguro que sai daí uma consequência".

Fazendo um paralelo com a situação de golpe vivida pelo Brasil no passado, a presidente Dilma lembrou que "nós que passamos por um processo muito doloroso de golpes e passamos por processo de retomada da democracia. Dar valor a ela é algo muito importante, mostra maturidade da América Latina".

Telefonema. Mais cedo, antes do desfecho, Dilma entrou em contato com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, integrante da comissão de chanceleres que foi até a capital paraguaia levar o recado dos presidentes da Unasul. O grupo considera o processo de cassação "apressado demais". A presidente chegou a conversar com Lugo, pela manhã, antes da conclusão do impeachment. Ele informou que recorreria à Corte Suprema para tentar evitar seu afastamento.

Nas conversas mantidas com o presidente Lugo, o paraguaio informou à presidente que chegou a procurar ontem a cúpula militar paraguaia para tentar interceder no processo. Os militares informaram que não estavam envolvidos e consideram a questão puramente parlamentar.

Em Brasília, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), afirmou que o processo de impeachment não garantiu um "amplo direito de defesa". "Pelo que eu vejo e pela celeridade com que esse processo está marchando, ele não pode assegurar um amplo direito de defesa, como devem ter aqueles que são submetidos a um processo dessa natureza."

Em Assunção, também antes da votação no Senado, um comunicado da Unasul dava a entender que o Paraguai deve ser alvo de sanções internacionais, incluindo a suspensão do Mercosul e Unasul. O chanceler da Venezuela, Nicolas Maduro, foi o mais duro nas condenações ao impeachment do presidente Lugo. "Não foi concedido o pleno direito à defesa", afirmou, concluindo que a manobra do Legislativo do Paraguai foi "um golpe institucional".

Ao Estado, o porta-voz do Itamaraty, embaixador Tovar Nunes, qualificou de "execução sumária" e "jogo de cartas marcadas" o processo contra Lugo. Antes de saber da decisão dos senadores paraguaios, Nunes afirmou que a deposição do presidente deve levar países sul-americanos a suspender Assunção de mecanismos como Mercosul, Unasul e Celac.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.