Dilma evita confronto com Itamaraty

Embora tenha deixado claro ser contra apedrejamento no Irã, eleita não comenta voto brasileiro para evitar embate com governo atual

Leonencio Nossa e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

A presidente eleita Dilma Rousseff evitou comentar ontem a decisão do governo de se abster na votação de uma resolução da ONU que pede o fim de sentenças a apedrejamento no Irã. Ela foi informada do voto do Itamaraty à tarde. Pessoas próximas de Dilma disseram que a presidente mantém sua posição de condenar a medida, mas, para evitar o confronto antes de assumir o poder, não criticará ações do atual governo.

Logo após as eleições, Dilma afirmou que era "radicalmente" contra o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, acusada de adultério e de participar no assassinato do marido.

"Acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh", disse. "Mesmo considerando os usos e costumes de outros países, (o apedrejamento) continua sendo bárbaro."

A declaração de Dilma foi vista por assessores internacionais do Planalto e diplomatas como a primeira sinalização de mudança na política externa do governo, marcada por constrangimentos na área de direitos humanos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi criticado por visitar ditadores e fazer declarações elogiosas a regimes autoritários.

O Ministério das Relações Exteriores é uma das pastas que deverão ter novos chefes, observaram os assessores. O mais cotado para assumir o Itamaraty é o atual secretário-geral Antônio Patriota. De 2007 a 2009, ele esteve à frente da embaixada brasileira em Washington, período em que se aproximou de Dilma, então ministra da Casa Civil. Os dois chegaram a assistir óperas e visitar exposições de artes plásticas em Nova York.

Embora o atual governo tenha irritado entidades de direitos humanos do País e do exterior ao não condenar abertamente violações de direitos humanos, os assessores observam que, nos últimos dias, o próprio presidente Lula repetiu em entrevistas que não tomaria decisões em assuntos polêmicos sem antes conversar e negociar com Dilma.

Não há registro de que a presidente eleita tenha sido consultada sobre a decisão da política externa no caso do Irã.

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