Johns Hopkins/Divulgação
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Dinâmica de desigualdade no acesso às vacinas pode continuar em 2023, diz especialista

Para o epidemiologista Chris Beyrer, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, expandir capacidade de fabricação é urgente

Entrevista com

Chris Beyrer, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

A demora para imunizar a população mundial pode minar a primeira geração de vacinas contra a covid-19, afirma o epidemiologista e professor da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. “Os imunizantes da Pfizer e da Moderna que estamos usando agora foram desenvolvidas a partir do vírus encontrado em um paciente de Washington em março do ano passado. Ela já está desatualizada em 14 meses”, afirma Beyrer, que defende a expansão da capacidade de fabricação de vacinas de alta eficácia como solução para o problema. Confira a entrevista:

Quais são, hoje, as principais causas da desigualdade no acesso às vacinas contra covid-19?

A primeira coisa a ser dita é que essas vacinas, principalmente as de RNA mensageiro, são muito tecnologicamente avançadas. É uma ciência que envolve nanotecnologia, e há um número limitado de lugares em que elas podem ser produzidas agora. O segundo problema é que os países mais ricos encomendaram essencialmente todas as doses que estaremos fabricando nos próximos anos. EUA, Alemanha, muitos países da UE compraram mais vacinas do que o necessário para imunizar suas populações. Nos EUA, vamos imunizar crianças de 12 anos de idade com doses da Pfizer porque temos o suficiente para isso. Outra questão é que algumas dessas vacinas não parecem proteger tanto contra certas variantes. Temos o caso do Chile, por exemplo, onde há alta cobertura, mas com a Coronavac, e não vemos diminuição significativa em taxas de infecção e de hospitalização. Nós precisaremos focar em expandir a fabricação e distribuir mais igualmente as vacinas de alta eficácia. São elas que realmente vão acabar com a pandemia.

É possível estimar o quanto a quebra de patentes aceleraria a imunização no mundo? Seria uma “solução mágica”?

Não. Particularmente as de RNA mensageiro são muito difíceis de produzir, e quebrar as patentes não mudará nada no curto e no médio prazo. Precisaria haver uma transferência significativa de tecnologia e de capacidade de construção (de laboratórios), isso seria um grande investimento. Eu acho que vale a pena, mas levará tempo. Nessa crise urgente, onde estamos tentando nos livrar das variantes, eu acho que é necessário seguir esse caminho mas ao mesmo tempo expandir a produção, e isso não pode ser feito sem a ajuda das companhias. Só entregar para alguém um protocolo de como fazer as vacinas e esperar que esse alguém consiga...em qualquer escala real, simplesmente não é realístico. 

Quais são as principais consequências deste cenário?

Nós estamos vendo, na Índia e no Brasil, que a pandemia continua causando muito sofrimento, adoecimento, perda de vidas. E se não conseguirmos imunizar as pessoas, isso continuará acontecendo. Enquanto houver um grande número de pessoas suscetíveis não imunizadas, o vírus vai continuar evoluindo, nós já estamos vendo isso com as novas variantes. Isso poderia minar toda essa geração de vacinas. Os imunizantes da Pfizer e da Moderna que estamos usando agora foram desenvolvidas a partir do vírus encontrado em um paciente de Washington em março do ano passado. Ela já está desatualizada em 14 meses. O vírus de então era muito diferente do que circula hoje nos EUA, onde a maioria dos casos são da cepa b117, identificada inicialmente no Reino Unido. Estamos preocupados que se continuarmos nessa terrível desigualdade, o vírus vai escapar das vacinas atuais. Se isso acontecer, teremos que reimunizar as pessoas ou criar novas vacinas, e nesse caso veremos países ricos comprando doses e podemos continuar nessa dinâmica em 2023.

Quão perto estamos de uma variante que escape das vacinas atuais?

Nós já sabemos que ao menos uma variante, a identificada na África do Sul, reduz a eficácia da proteção da vacina da Astrazeneca. Não é o futuro, está aqui agora. De qualquer forma, as vacinas de RNA mensageiro parecem robustas. Elas parecem aguentar essas variantes.

Vimos campanhas de vacinação lentas também em alguns países ricos, como o Japão, e em países que controlaram a pandemia, como Austrália, Nova Zelândia e Vietnã. Como isso pode ser explicado?

Há diferentes razões para os atrasos. Alguns são regulatórios, outros são porque os países fizeram acordos de compra de vacinas que depois se tornaram indisponíveis por problemas de produção, como no caso daquelas produzidas na Índia. Há também um número de países que foram lentos na hora de encomendar vacinas. Nós sabemos que os EUA, por exemplo, fizeram isso muito rapidamente, investiram bilhões em compras de vacinas antes mesmo que elas estivessem sendo testadas em larga escala. Nós apostamos, esse dinheiro seria desperdiçado se a vacina não fosse efetiva. Mas se mostrou uma boa aposta.

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