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Dinastia Ortega

Toda família tem seus podres. Sem eles, não haveria novela das oito, nem metade da dramaturgia de Shakespeare. Ultimamente, nenhuma rixa doméstica chega perto da toxicidade da primeira família de Nicarágua, onde o patriarca e presidente Daniel Ortega governa com soberba de Coriolano, bênção do guru indiano Sai Baba e malandragem de vilão de folhetim.

MAC MARGOLIS,

19 de maio de 2013 | 02h04

Comecemos pelos últimos episódios, mas vale lembrar: o guerrilheiro marxista que trocou o charuto cubano pela faixa presidencial nicaraguense foi reeleito em 2011. Ganhou de lavada, graças à onda excepcional de prosperidade dos exportadores de commodities e com anuência da Corte Suprema, que ignorou a proibição constitucional contra reeleição.

Desde então, o ex-insurgente sandinista suavizou sua retórica nacionalista, controlou os gastos públicos e cortejou investidores, ao mesmo tempo em que intimidou rivais e calou a imprensa livre. Sua cartilha foi uma espécie de heterodoxia bolivariana, que temperou a mordaça de Hugo Chávez com o pragmatismo econômico do petismo de Lula. Pense em um brucutu com MBA.

Os nicaraguenses aprovam, segundo as urnas, mas falta combinar com a própria família. E a desarmonia caseira é gritante. A maior pedra na bota da revolução orteguista é uma morena, de 45 anos, mãe de três filhos, de timbre delicado e nervos de aço.

Zoilámerica Navaráez Murillo Ortega é a enteada de Ortega e filha da primeira-dama, Rosario Murillo. Em 1998, acusou o padrasto de ter abusado sexualmente dela durante 20 anos seguidos, desde seus 11 anos de idade. A Justiça nicaraguense, lotada de orteguistas, pensou diferente e engavetou o processo.

Zoilamérica não desistiu e apelou para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Aí a historia fica embaçada, mas depois de uma série de manchetes comprometedoras e uma muita alardeada reconciliação com a mãe, em 2008 ela concordou em retirar a queixa. O "reencontro" entre mãe e filha foi um evento nacional, transmitido pela rádio sandinista. Zoilamérica voltou a usar o sobrenome Ortega Murillo e dizia-se "em paz" com o passado.

Por um tempo, tudo corria bem com seu trabalho à frente de uma ONG dedicada a defender a diversidade sexual que clamava espaço na machista sociedade nicaraguense. Até que se bateu no paredão sandinista. Aclamado pelas urnas, onde conseguiu 66% dos votos, Ortega canalizou seu lado bolivariano. Encampou empresas, silenciou a crítica e centralizou ainda mais seu poder, tudo pela revolução e com o jingle "um futuro de vida, luz e verdade".

Encontrou eco na primeira-dama, Rosario Murillo, devota ao guru pop indiano Satya Sai Baba, o mesmo cultuado pelo finado Idi Amin, outrora carrasco de Uganda. Zoilamérica não se impressionou. Falante e assertiva, virou porta-voz de uma tendência política modesta, mas independente. Independência que incomodava o supremo sandinista. Não ajudou que Zoilamérica tenha acabado reiterando, palavra por palavra, todas as acusações de 15 anos atrás contra o padrasto. "Minha verdade está intacta", disse.

Segundo a crítica, Ortega não pestanejou. Ligou para a embaixada da Noruega para vetar o financiamento da ONG da enteada. Noruega nega o veto, mas admitiu um telefonema do ministro sandinista - e confirmou a suspensão do desembolso à ONG.

"Há de entender que quando a Noruega trabalha em dado país, o faz por convite do governo anfitrião", disse um ministro norueguês ao jornal La Prensa, de Manágua. A Noruega, como boa parte de Nicarágua, entendeu a regra e já se curvou às razões do brasão Ortega. A filha adotiva de revolução, ainda não.

* É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM.
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