Dinheiro da UE alimenta máfia na Bulgária

Após onda de crimes, autoridades européias congelam ajuda

Doreen Carvajal e Stephen Castle, O Estadao de S.Paulo

26 de outubro de 2008 | 00h00

Na Bulgária, grupos empresariais corruptos conduzem disputas até a morte pelo controle de tudo, desde negócios imobiliários até os milhões em ajuda enviados pela União Européia. E a vida dos políticos vale muito pouco. Sob praticamente todos os critérios, a Bulgária é o país mais corrupto entre os 27 membros da UE.No ano passado, a casa da presidente de um comitê eleitoral foi queimada e garagens de vários prefeitos foram atacadas com bombas. Em uma cidade turística, o prefeito foi assassinado a tiros. "Outros países têm máfias", disse Atanas Atanasov, membro do Parlamento e ex-chefe de contra-espionagem. "Na Bulgária, a máfia é quem tem o país nas mãos." Os EUA ajudaram a Bulgária a entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), enviam soldados para a realização de exercícios conjuntos desde 2004 e buscam estimular o comércio, a educação e a democracia no país. A UE, ansiosa para melhorar a vida dos 7,5 milhões de búlgaros, prometeu ainda uma ajuda de US$ 15 bilhões. Longe de interromper o crime e a violência, o dinheiro espalhou a corrupção.Assim que os mafiosos perceberam quanto dinheiro estava em jogo, deixaram de subornar políticos para participar eles mesmos da política. Alarmadas com os crimes de colarinho branco, as autoridades européias congelaram US$ 670 milhões em financiamentos. Assim, as máfias búlgaras deixaram de abastecer o mercado negro com cigarros e álcool e passaram a se envolver em investimentos imobiliários, um mercado em expansão. Hoje, elas controlam praticamente todos os projetos de construção das prefeituras.As organizações criminosas também deixaram sua marca na capital. Homens apelidados de "pescoços largos", por causa da aparência musculosa, estão por toda a parte. Os guias de Sófia dão uma dica: evite restaurantes que atraiam executivos acompanhados de quatro ou mais guarda-costas. Os investigadores do Escritório de Combate às Fraudes da UE estão se concentrando no grupo Nikolov-Stoykov, um conglomerado de empresas de ramos que vão do processamento de carne até atividades turísticas no Mar Negro. Os dois principais parceiros do grupo - ambos detidos e soltos logo em seguida no ano passado por suspeita de fraude - têm ligações com os mais altos escalões do governo.Ludmil Stoykov ajudou a financiar a campanha do atual presidente, Georgi Parvanov. Seu sócio, Mario Nikolov, fez uma discreta aliança com o primeiro-ministro, Sergei Stanishev, doando mais de US$ 137 mil a seu partido. De acordo com funcionários anticorrupção e observadores da UE, na Bulgária os votos podem ser negociados em troca de cigarros de maconha ou de valores inferiores a US$ 70. Para efetivar a venda, as pessoas fotografam seus votos com câmeras de celular.

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