Diplomacia entre bico, gols e caneladas

Americanos e cubanos escrevem outro capítulo da relação entre esporte e política externa

CRISTIANO DIAS, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2015 | 02h08

A bola foi bastante maltratada, mas não importa. Quando New York Cosmos e seleção cubana se enfrentaram em Havana, na terça-feira, escreveram mais um capítulo da relação entre diplomacia e esporte. A combinação é vista por muitos governos como uma panaceia capaz de reduzir tensões e promover diálogo. Afinal, diplomacia e esporte têm regras universais de respeito e tolerância.

No entanto, a combinação também pode ser explosiva. Os rompantes nacionalistas e o clima de guerra criado pela competição de alto rendimento refletem uma imagem oposta à de diplomatas negociando fleumaticamente um compromisso.

Faltavam dois minutos para terminar a partida em Hamburgo, em junho de 1988, quando o atacante holandês Marco van Basten colocou a bola no cantinho direito do goleiro alemão Eike Immel. O que os holandeses viram no lance foi o herói da resistência deslizando na grama para vencer um carrasco da Waffen-SS. A Holanda derrotou a Alemanha por 2 a 1 e se classificou para a final da Eurocopa - que venceria quatro dias depois. Imediatamente após o apito final, brigas entre torcedores dos dois países foram registradas na fronteira, nas cidades de Kerkrade e Enschede.

Naquele dia, 9 milhões de holandeses - de uma população de 14 milhões - saíram às ruas para exorcizar os quatro anos de ocupação nazista. "O futebol é uma guerra", resumiu Rinus Michels, técnico da Holanda.

A famosa frase de Michels adquiriu sentido literal em 1969, durante as eliminatórias para a Copa de 1970. El Salvador e Honduras viviam às turras em razão da deportação em massa de salvadorenhos que haviam cruzado ilegalmente a fronteira. No auge da crise, os dois países se enfrentaram por uma vaga no Mundial. Após duas partidas marcadas pela violência - com uma vitória para cada lado -, a decisão foi jogada no México e terminou com vitória de El Salvador, na prorrogação, por 3 a 2. Foi o estopim para um conflito aberto que durou cinco dias e deixou 2 mil mortos.

O caso mais famoso de uso do esporte como ferramenta de política externa, no entanto, continua sendo o boicote olímpico. Em 1980, pressionado pela invasão soviética do Afeganistão, no ano anterior, o presidente americano Jimmy Carter anunciou que os EUA não participariam da Olimpíada de Moscou. O troco foi dado pelo Kremlin nos Jogos Olímpicos seguintes, em Los Angeles.

Nem sempre, porém, esporte e política externa são um jogo de soma zero. Em 1971, a equipe de mesa-tenistas dos EUA disputava o campeonato mundial em Nagoya, no Japão, quando um jogador americano perdeu o ônibus e voltou para o hotel de carona com a delegação chinesa.

Quando Mao Tsé-tung soube da história, convidou os americanos para jogarem partidas no país. A Diplomacia do Ping-Pong, foi responsável pelo degelo nas relações entre Washington e Pequim e culminou com a visita do presidente Richard Nixon à China, em 1972.

Outro exemplo do poder do esporte foi dado nos anos 60, na África devastada por conflitos pós-independência. O Santos de Pelé passou pelo continente para disputar nove amistosos e paralisou duas guerras. A primeira, entre as duas repúblicas do Congo, em fevereiro de 1969. Dez dias depois, um cessar-fogo foi declarado em Biafra, durante a guerra civil nigeriana, para ver o Rei jogar.

Esporte e diplomacia também fizeram uma tabelinha que ajudou a derrubar o apartheid. O isolamento diplomático fez a África do Sul ser suspensa da Fifa, em 1963, e expulsa do Comitê Olímpico Internacional, em 1970. O último GP de Fórmula 1 em Kyalami foi disputado em 1985 e os sul-africanos ficaram de fora dos primeiros mundiais de rúgbi, em 1987 e 1991. Após a democratização, nos anos 90, Nelson Mandela, histórico líder da luta contra a segregação, usou duas seleções nacionais, a de rúgbi e a de futebol, para promover a união racial.

Rivais. Talvez a mais emocionante demonstração do impacto do esporte na diplomacia tenha sido dada no Aberto dos EUA de tênis, em 2010. O indiano Rohan Bopanna e o paquistanês Aisam-ul-Haq Qureshi surpreenderam o mundo ao chegarem à final do torneio de duplas e unirem dois rivais nucleares nas arquibancadas.

Entre os torcedores, os embaixadores de Índia e Paquistão na ONU. Após a partida - perdida para uma dupla americana -, o ministro dos Esportes da Índia, Manmohan Singh Gill, resumiu a importância do jogo. "Eu só tenho uma pergunta a fazer. Se Bopanna e Qureshi conseguem jogar juntos, por que a Índia e o Paquistão não podem?"

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