Diplomacia chinesa não fala pelo regime comunista

Bastidores: Andrew Higgins / W. Post

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2012 | 03h02

Anegociação envolvendo o ativista Chen Guandcheng ressaltou um problema persistente nas tratativas dos EUA com a China: os diplomatas que representam Pequim não têm nenhuma influência sobre um aparelho de segurança que somente presta contas aos altos escalões do Partido Comunista. Garantias de que Chen seria tratado com humanidade após sua partida na quarta-feira da Embaixada dos EUA em Pequim "claramente careciam de autoridade política", diz Nicholas Bequelin, pesquisador de assuntos ligados ao Leste da Ásia na organização Human Rights Watch. "Esse é um assunto de um partido, não de um governo. Apenas os altos escalões do partido podem dar garantias de que será feita uma exceção dentro do que é uma política de repressão sistemática de dissidentes na China."

O secretário adjunto de Estado Kurt Campbell e diplomatas americanos negociaram a sorte de Cheng com Cui Tiankai, vice-ministro chinês do Exterior, um dos departamentos mais enfraquecidos do governo chinês, bastante negligenciado e ocasionalmente humilhado pela poderosa e generosamente financiada estrutura de segurança.

O ministro do Exterior Yang Jiechi não tem assento no Politburo e no comitê de nove membros, o órgão de decisão supremo. O partido adota todas as decisões importantes, dita a política por meio de um grupo de comitês e de trabalho que operam quase em segredo e estão acima dos departamentos governamentais nominalmente responsáveis pelas políticas. Autoridades estrangeiras têm pouco contato direto com as estruturas do partido e os negócios são feitos por meio de agências governamentais chinesas que não têm nenhuma força.

Jeffrey A. Bader, membro do Brookings Institution, afirma que os EUA não têm outra alternativa a não ser trabalhar com o Ministério do Exterior da China em assuntos relacionados a dissidentes. "Foi ele o designado em 1989 quando negociamos o destino de Fang Lizhi (astrofísico dissidente) e a partir daí no caso de todos os dissidentes. Mas eles não atuam como uma agência independente. Eles retornam aos superiores para combinar sua maneira de agir." Bader observa que o Ministério do Exterior negociou e ofereceu um acordo que permitiu a Fang deixar a China depois de mais de um ano refugiado na Embaixada americana em Pequim.

Precedentes. Quando, no início do ano passado, agentes de segurança trataram duramente jornalistas estrangeiros no centro de Pequim, após apelos anônimos na internet para uma "revolução de Jasmin", o ministro do Exterior negou os incidentes, apesar de provas em contrário. A mesma incoerência ficou à mostra em fevereiro quando o vice-ministro do Exterior fez comentários sobre a fuga para o Consulado dos EUA em Chengdu de Wang Lijun, ex-chefe de polícia de Chongqing. Cui insistiu que o caso fora um "incidente isolado". Quase três meses depois, a saga continua a sacudir a liderança. Wang não foi visto em público desde a sua remoção para Pequim pelas autoridades. Bo Xilai, ex-patrão de Wang em Chongqing foi expurgado do Politburo e do Comitê Central, no que se tornou a mais grave turbulência política desde os protestos da Praça Tiananmen em 1989.

O limitado poder do Ministério do Exterior da China tem sido tema recorrente nas relações sino-americanas desde a década de 70, quando Henry Kissinger iniciou um trabalho para reverter décadas de hostilidade entre os países. Essa fragilidade algumas vezes foi vantajosa para os EUA. Em seu livro Sobre a China, Kissinger lembra como diplomatas chineses de início se opuseram à reunião de jogadores de pingue-pongue da China com seus adversários americanos durante um torneio no Japão em 1971. Mao Tsé-tung, acordando de um profundo sono provocado por medicamentos, deu ordens contrárias à sua própria linha diplomática, dizendo ao seu enfermeiro para telefonar para o Ministério do Exterior e ordenar que "convidasse a equipe americana (de pingue-pongue) a visitar a China".

Em assuntos envolvendo direitos humanos, contudo, a incapacidade do Ministério do Exterior para transmitir com exatidão o pensamento oficial tem provocado frustrações em Washington. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.