Mikhail Klimentyev/Sputnik via AFP
Mikhail Klimentyev/Sputnik via AFP

Diplomacia de Bolsonaro vai da continência à bandeira dos EUA aos braços de Putin; leia análise

Presidente é incapaz de pensar como estadista e olha para a política externa como mera extensão de disputas domésticas

Carlos Poggio*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2022 | 05h00

Em condições normais, a viagem de um presidente brasileiro à Rússia seria algo que não deveria gerar controvérsia. Afinal, desde Fernando Henrique Cardoso, todos os presidentes brasileiros se encontraram com Putin. Além de ser um importante fornecedor de fertilizantes para o agronegócio brasileiro, Rússia e Brasil são membros dos BRICS. Mesmo em uma situação de alta tensão geopolítica, não faria sentido Bolsonaro cancelar a viagem, que já estava marcada antes da atual escalada. Afinal, cancelar por que? Porque desagradaria aos Estados Unidos? Ora, não consta que Bolsonaro seja muito apreciado na Casa Branca, então não haveria muito a perder. Além disso, agradar aos Estados Unidos não deveria ser o objetivo central da política externa brasileira. O presidente argentino esteve com Putin na semana anterior ao encontro com Bolsonaro e não houve nenhum protesto por parte de outros países. Portanto, por si só, não haveria nenhum problema na visita do presidente brasileiro à Moscou. Ocorre que a política externa bolsonarista está longe de ser normal, no sentido literal de representar a norma seguida pelo Itamaraty desde sempre. E é nesse contexto que a viagem de Bolsonaro deve ser entendida.

Explico. Desde que assumiu o cargo, Bolsonaro demonstra não compreender um princípio basilar da política externa: o fato de ser uma relação entre Estados e não entre indivíduos. Como se costuma dizer, Estados tem interesses, não amigos. Os custos dessa abordagem amadora em política externa ficaram claros naquela que era a principal diretriz da política externa bolsonarista: bajular Donald Trump. Ao invés de seguir o exemplo bem sucedido de países como México e Colômbia e construir uma relação mais sólida e duradoura com a sociedade e, particularmente, com o Congresso americano – o que inclui evidentemente Republicanos e Democratas – Bolsonaro apostou tudo na relação com Trump, a quem chamava de amigo. Com a derrota do Republicano, não lhe sobrou nada. Ernesto Araújo, o arauto do trumpismo tupiniquim, foi demitido e em seu lugar entrou um ministro menos excêntrico e que, principalmente, mantém-se longe do Twitter. Analistas começaram a se perguntar se o novo chanceler, Carlos França, seria capaz de fazer Bolsonaro retomar algum vestígio da diplomacia profissional. Isolado internacionalmente e rechaçado pelas principais capitais do mundo ocidental, a viagem à Rússia foi vista como uma oportunidade política para melhorar as credenciais de política externa do presidente brasileiro em ano de eleição. Para analistas políticos, foi uma oportunidade de examinar se, em seu último ano de mandato, Bolsonaro teria entendido princípios básicos de política externa.

A resposta que vem do inverno moscovita é não. Na coletiva de imprensa com Putin, a quem chamou de amigo, Bolsonaro começou dizendo que compartilha os valores do autocrata russo. Mencionou, sem surpresas, Deus, família e cristianismo. Não sabemos o que o presidente brasileiro pensa sobre os esforços de Putin em minar a ordem internacional patrocinada pelos Estados Unidos, nem se entre os valores que ele diz compartilhar inclui a perseguição à imprensa e a inimigos políticos. Sabemos que, pelo que disse em entrevista a jornalistas brasileiros, Bolsonaro acredita que pode ter algo a ver com a retirada de algumas tropas russas da fronteira com a Ucrânia. O que vimos, em outras palavras, foi o Jair Bolsonaro de sempre. Um pouco melhor assessorado, salpicando referências à ONU e ao meio ambiente, mas o mesmo político que conversa apenas com sua própria base, incapaz de pensar como estadista e que olha para a política externa como mera extensão de disputas domésticas. Bem diferente do presidente russo, que, fixado no objetivo estratégico de conter os Estados Unidos, se aproxima tanto de Maduro como de Bolsonaro. Por aqui, o resultado é uma política externa errática que começa batendo continência para a bandeira americana e termina nos braços de Putin.

* DOUTOR EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS ESPECIALISTA EM EUA E PROFESSOR NA FAAP

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