Diplomacia de Putin encobre horrores na Chechênia

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tem, decididamente, uma diplomacia muito ativa. Alguns dias depois de receber o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, ei-lo em visita a Paris antes de viajar para a Polônia. Ele se empenha em tirar todos os benefícios internacionais da atitude inteligente que adotou após a destruição das torres gêmeas de Nova York e da guerra do Afeganistão. Tendo então tomado resolutamente, e muitas vezes contra os conselhos de seus generais, o partido dos Estados Unidos e do Ocidente contra o "terrorismo", conseguiu reintroduzir a Rússia no grande jogo da diplomacia ocidental. Os benefícios a longo prazo dessa postura - no campo econômico e petroleiro, no das relações com o Ocidente e na geopolítica da Ásia Central - são incontestáveis. A curto prazo, Putin conseguiu, por seu indiscutível apoio à "coalizão Bush", fazer calar as lamentações do Ocidente sobre a brutalidade das tropas russas na Chechênia. Nesse tabuleiro de xadrez, a França constituía uma peça importante. De fato, Paris foi uma das capitais ocidentais mais severas em relação à repressão russa na Chechênia. Os outros líderes europeus - mais particularmente Tony Blair e Gerhard Schröeder - menos "ideológicos" que Paris, mais "real-politik", haviam há muito amenizado seus protestos contra a violência russa. Desde setembro, a França evoluiu. Nos escalões oficiais, fala-se bem menos da Chechênia. Jacques Chirac recebe Putin em Paris a fim de "fortalecer o apoio da Rússia às estruturas ocidentais". A Chechênia não está na ordem do dia dos assuntos a serem tratados. É preciso esclarecer que a sorte da Chechênia não mudou, por milagre, desde 11 de setembro. Essa pobre república continua esmagada pelos soldados russos, torturada, vencida, humilhada. Mesmo que as notícias da Chechênia sejam mais raras hoje do que ontem (em virtude do "enquadramento" dos raros jornais russos ainda um pouco livres), possuímos documentos terríveis sobre o que está acontecendo em Grozny (a capital, hoje calcinada, morta), nas cidades chechenas e no campo. Os "zatchitsky" (batidas e limpezas étnicas) continuam a ser executados com perseverança. "Esquadrões da morte" metralham, matam e torturam (note-se que esses esquadrões agem por ordens superiores). Homens mascarados, encapuzados, altos e fortes, geralmente bêbados, circulam em tanques ou em carros sem chapa, entram nas casas, matam. Algumas vezes, limitam-se a cortar dedos, orelhas... Segundo informantes, a repressão não aumentou desde 11 de setembro, ou seja, desde que o Ocidente se resignou, por razões de alta diplomacia, a fechar os olhos diante do que acontece na Chechênia. A mudança ocorre em outra parte. Os russos, hoje preocupados em consolidar seus recentes sucessos diplomáticos, tomam mais cuidados do que antes para legitimar seus desmandos, seus assassinatos. Não é raro que um general, um chefe militar, se pavoneie na televisão russa, em uma aldeia devastada e mesmo diante dos cadáveres. O general designa os despojos e explica que se tratam de "bandidos mortos com as armas na mão". Em alguns casos, os oficiais russos chegam até a admitir que civis inocentes podem ser maltratados pelos soldados russos. "É preciso compreender", explicam então, "que os inocentes sofrem e às vezes morrem justamente por causa de todos esses bandidos".

Agencia Estado,

15 Janeiro 2002 | 17h20

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