Diplomacia do jantar entre China e Taiwan

Encontro histórico entre líderes de Pequim e Taipé aponta para caminho nada fácil rumo a uma reconciliação plena

Chris Patten, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2015 | 06h30

Muita água passou pelo Estreito de Taiwan nos 70 anos desde que o líder da China comunista, Mao Tsé-tung, se reuniu com o líder dos seus adversários nacionalistas, Chiang Kai-shek. Por isso, a recente reunião em Cingapura de seus herdeiros, o presidente chinês, Xi Jinping, e seu colega taiwanês, Ma Ying-jeou, pode ser legitimamente definida como histórica.

A negociação diplomática que antecedeu o encontro foi extremamente complexa e tratou até de quem teria de pagar o jantar – eles dividiram a conta. Mas, depois de uma breve troca de opiniões a portas fechadas, não foi emitido nenhum comunicado conjunto. Então, qual seria o motivo da realização desse encontro, e o que isso permite prever?

Evidentemente, o dinheiro fala para as duas, China e Taiwan, e suas economias agora estão estreitamente ligadas. São numerosos os taiwaneses que moram e trabalham na China – principalmente na área de Xangai – e há enormes investimentos taiwaneses na indústria chinesa. Taiwan é a Foxconn, a maior fabricante de produtos eletrônicos do mundo, com 12 fábricas na China – entre elas, uma que fica em Shenzhen e emprega centenas de milhares de trabalhadores.

Entretanto, embora a política taiwanesa seja naturalmente dominada pelas relações da ilha com o continente, a realidade da existência de profundos laços comerciais entre China e Taiwan não tem um equivalente diplomático. O Kuomintang (também chamado Partido Nacionalista Chinês) pretende melhorar as relações sem abrir mão da independência de Taiwan. Seu oponente, o Partido Democrático Progressista, quer uma posição mais autônoma, embora seja duvidoso que consiga alcançar algo mais concreto do que “beliscar o nariz” da China.

Pesquisa realizada há três anos indicou que 80% dos 25 milhões de taiwaneses apoiariam uma declaração formal de independência, desde que isso não desse margem a uma invasão chinesa. É uma ressalva considerável. A China adverte regularmente Taiwan contra qualquer tipo de ações imprudentes como essa e os EUA alertam toda vez que os líderes da ilha parecem se comportar de maneira excessivamente arrogante com o continente.

Aparentemente, são duas as razões pelas quais Xi e Ma se reuniram. Em primeiro lugar, estão claramente preocupados com a possibilidade de que o Kuomintang, que no ano passado sofreu uma pesada derrota nas eleições locais, também perca as eleições gerais de janeiro. Ambos esperam obter benefícios eleitorais mostrando que China e Taiwan podem se relacionar sem grandes problemas.

Além disso, num momento em que a economia chinesa desacelera e as tensões regionais crescem pelo fato de a China mostrar sua força nos mares do Sul e do Leste da China, Xi parece ansioso para irradiar ambições de amor à paz. Tendo desestabilizado muitos de seus vizinhos, sua futura visita ao Vietnã e a visita do seu primeiro-ministro, Li Keqiang, à Coreia do Sul são partes integrantes de sua diplomacia da hora do jantar com Ma.

As verdadeiras intenções da China no longo prazo não são inteiramente óbvias. Talvez isso seja parte de sua estratégia: sinais ambíguos têm um papel importante na diplomacia. Mas duas coisas são claras.

Em primeiro lugar, a iniciativa de Xi mostra até que ponto ele domina a política chinesa. Um líder mais fraco não poderia ter dado um passo tão ambicioso, o que representa um rompimento concreto com a ortodoxia comunista do passado.

Em segundo lugar, a reunificação pacífica do continente com Taiwan permanece improvável, a não ser que ocorra – como a China continua prometendo – com base no princípio de “um país, dois sistemas”. Mas os taiwaneses não podem se sentir muito tranquilizados pelo que ocorre hoje em Hong Kong, a quem foi feita a mesma promessa antes de seu retorno à China, em 1997.

O exemplo de Hong Kong sugere que a China teria de obrigar Taiwan a desistir da democracia e do Estado de direito – ou abraçar ambos – antes de poder receber sua “província rebelde” de volta. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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