Diplomacia francesa sofre dupla derrota

A diplomacia francesa, habitualmente engenhosa, sofreu esses dias uma dupla derrota. No que diz respeito à guerra contra o Iraque, a Europa não segue mais a visão dividida pela França e Alemanha, ou seja, a recusa em se juntar à coalizão formada por George W. Bush se a ONU nãoaprovar uma resolução pela guerra.A Inglaterra, provavelmente com o apoio poderoso da Casa Branca, conseguiu isolar a França e a Alemanha no seio da União Européia: Itália, Espanha, vários candidatos à UE, como a Polônia e a República Checa, entre outras, se agregaram à turma dos Estados Unidos. E Putin, reticente até pouco tempo, está dando sinais de apoio a Bush e Blair.O segundo reverso da diplomacia francesa foi a Costa do Marfim, esse grande país da África Ocidental, antiga colônia francesa, e hoje ameaçada pelo caos.Um resumo: o Norte da Costa do Marfim se revoltou contra o Sul, ou seja, contra o governo legal. Grupos rebeldes atacaram, invadindo a capital, Abidjã. O exército legalista é uma nulidade. Vai ser derrotado. Acredita-se em banho de sangue. A França interveio. Enviou soldados para separar os combatentes.Convocou uma reunião de todas as facções em Paris e sugeriu uma solução, ou seja, a formação de um governo representando todas as linhas, inclusive as dos rebeldes. Dois ministérios importantes foram oferecidos aos rebeldes. E que ministérios, o da Defesa e o do Interior.Todo mundo festejou, Paris bebeu champanhe, mas esse festejo foi breve, pois no dia seguinte o presidente compreendeu que foi fritado ao deixar se impor como ministros da guerra e do interior os mesmos que lançaram batalhões contra ele. E ele denunciou o acordo de Paris.DesastreEssa manobra foi engendrada por Chirac por motivos muito nobres - acabar com o massacre, proteger os franceses da Costa do Marfim, ajudá-los a sair do impasse. Mas foi executada com tamanha má vontade que, hoje, a situação é simplesmente trágica: a Costa do Marfim está à beira do abismo.Quanto à França, ela está sendo odiada, desprezada e apontada como nos bons velhos tempos, como um país colonialista. Nas ruas de Abidjã, Jacques Chirac é desenhado com os traços de Bin Laden. Paris prepara a evacuação urgente dos funcionários franceses, assustados diante de hordas raivosas.É claro que Chirac e seu ministro Villepint agiram de maneira desinteressante, para salvar vidas humanas e restaurar a paz.Mas se esqueceram que, para uma missão de paz em uma velha colônia francesa, a França foi, de todos os Estados do mundo, apior escolha.No futuro, é bom lembrar de colocar na mochila do diplomata alguns ingredientes: um pouco de memória e um tônico de delicadeza. A boa vontade não é suficiente. Como dizia, antigamente, Mitterrand à propósito da vida política: "É um trabalho!".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.