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Diplomacia não freará programa iraniano

Meios diplomáticos são incapazes de aumentar custos ou dar incentivos para fazer o Irã desistir de seguir rumo à bomba

HENI OZI, CUKIER, ESPECIAL PARA O ESTADO, É CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA ESPM-SP, HENI OZI, CUKIER, ESPECIAL PARA O ESTADO, É CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA ESPM-SP, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2012 | 03h02

Artigo

O debate sobre a crise do programa nuclear iraniano continua produzindo as mais diversas interpretações. No entanto, independente da variedade de opiniões, o mais preocupante é a confusão que se tem feito entre análises prescritivas - fundamentadas num puro desejo idealista de encontrar uma solução pacífica e supostamente menos custosa - e análises realistas - que medem os incentivos, custos e alternativas no contexto atual de todos os envolvidos na crise.

Fazendo uma síntese das diferentes opiniões sobre os desdobramentos da crise iraniana, é possível identificar três linhas principais de pensamento:

(I) a que acredita na solução diplomática e pacífica;

(II) a que apoia o uso da força para destruir ou retardar o programa nuclear iraniano;

(III) a que busca aceitar e conviver com um Irã atômico - seja com capacidade de construir bombas ou já em posse delas.

Dessas três linhas, a que merece mais atenção é a primeira (solução diplomática), exatamente por ser a mais desejada e, em função disso, a que traz mais confusão ao debate sobre a questão iraniana. Mas a via diplomática não tem se apresentado como uma solução no cenário atual. Muitos perguntam a razão. Para responder essa pergunta é necessário mensurar os custos e benefícios iranianos associados à construção de uma bomba atômica. Deve-se entender como a via diplomática pode alterar essa equação. Sendo o Irã um ator racional, suas escolhas vão buscar maximizar ganhos e minimizar perdas.

Benefícios. O ganho mais valioso para o regime iraniano é a capacidade de se manter no poder. Em um ambiente internacional anárquico e competitivo, possuir a mais poderosa das armas pode garantir a sobrevivência de regimes repressores. Estados que possuem a bomba atômica ficam mais imunes a ameaças externas por sua capacidade de retaliação. Esse benefício é valioso e altamente tangível.

Uma bomba atômica também muda toda a equação estratégico-militar das relações entre países vizinhos, independentemente da intenção de quem a possui de usá-la ou não. A bomba serve como um poderoso ativo que confere vantagens competitivas únicas.

Dado o contexto regional no qual o Irã está inserido, a posse de um artefato nuclear tem um valor inestimável, uma vez que pode colocar o Estado iraniano mais próximo da supremacia regional.

Para a sociedade iraniana, o programa nuclear é um projeto nacional de extremo orgulho. A população apoia o desenvolvimento da tecnologia e eventualmente até da bomba atômica. Portanto, do ponto de vista da política nacional e da opinião pública iraniana, não existem pressões para seus líderes - tanto da situação quanto da oposição - abdicarem de tal projeto. Está claro que os benefícios associados ao domínio da tecnologia nuclear são muito relevantes.

Custos. A opção diplomática para a resolução do impasse só consegue produzir custos para o programa nuclear iraniano por meio de sanções e isolamento. Mesmo para os que defendem essa opção, é quase unânime a ideia de que sanções não produziram mudanças de comportamento na política nuclear iraniana.

É consenso que sanções econômicas acabam fortalecendo regimes em vez de enfraquecê-los. A população acaba sendo a mais prejudicada; e o regime usa isso como arma política para ganhar apoio popular. Ou seja, o que seria supostamente um custo ou um castigo acaba se tornando um ganho indireto.

As únicas sanções capazes de infligir um custo intolerável ao regime iraniano demandam uma coalizão global inexistente hoje e mesmo num futuro próximo. China, Índia, Turquia e Japão precisariam parar de comprar petróleo de Teerã para que as sanções produzissem um custo exorbitante.

Incentivos também fazem parte do portfólio diplomático. Mas quais seriam os incentivos oferecidos, numa negociação, capazes de inverter a análise de decisão iraniana? Estaríamos falando de reaproximação política? Ou incentivos econômicos? Que tipo de ganho econômico ou reaproximação política teria um valor concreto comparável aos ganhos oferecidos pela bomba, como garantia de sobrevivência e supremacia de poder?

Voltar a ter relações diplomáticas com os EUA não mudaria substancialmente a vida de um país que, há mais de trinta anos, não mantem relações com os americanos.

Então, que tipo de contrato comercial poderia ser tão valioso? Os Estados Unidos trocariam a Arábia Saudita pelo Irã como seu maior fornecedor de petróleo da região?

Os meios diplomáticos não têm ferramentas capazes de aumentar os custos ou de oferecer incentivos suficientes para alterar a atual relação de custo-benefício do regime iraniano em favor da manutenção do seu programa. Consequentemente, o mundo deve decidir se os riscos de um Irã nuclear se sobrepõem ou não aos riscos de um ataque militar para destruir ou atrasar seu audacioso programa.

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