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Diplomacia paralela

Engajamento de ativistas, governadores e empresários é bem-vindo

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2021 | 05h00

O impacto destrutivo da desorientação da política externa de Jair Bolsonaro, sobretudo no que tange às vacinas e ao meio ambiente, levou ao engajamento de governadores, empresários, ambientalistas, ativistas de direitos humanos e especialistas em relações internacionais. Não há razões para celebrar o pano de fundo, mas a entrada em cena desses novos atores da diplomacia é bem-vinda e necessária, num país importante como o Brasil.

Na videoconferência com o Fórum de Governadores, na quinta-feira, o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, respondeu aos ataques do presidente brasileiro à China: “Como em qualquer setor, nossa cooperação de vacinas também precisa de um ambiente político justo e amigável. No momento em que a China se empenha em superar todas as dificuldades para ajudar o Brasil no combate à pandemia, felizmente contamos com toda a compreensão e apoio da maioria dos governadores, e gostaria também de manifestar o meu agradecimento”.

O embaixador continuou, de improviso, em seu português recém-adquirido: “Acreditamos que o povo brasileiro, na sua maioria, tem uma visão imparcial, objetiva, sobre as relações sino-brasileiras. Compreendem melhor e apoiam nossas políticas recíprocas. E combatem as palavras absurdas e desditosas que atacam a parceria China-Brasil. Devemos reduzir o espaço dos mal-intencionados”. 

Os 27 governadores estavam representados por diferentes tendências políticas: João Doria, de São Paulo, Flávio Dino, do Maranhão, Valdez Goes, do Amapá, e Wellington Dias, do Piauí, coordenador de saúde do Fórum. Eles agradeceram a cooperação da China. A Coronavac e mais os insumos vindos da China tanto para a fabricação da vacina chinesa quanto da AstraZeneca representam mais de 90% das doses aplicadas no Brasil. 

Eles também pediram um esforço maior para acelerar a entrega de mais insumos, e se possível estabelecer um cronograma de entrega para o Brasil planejar a aplicação da segunda dose. 

O nome de Bolsonaro não foi mencionado na reunião remota de 1 hora e 14 minutos, mas Dino disse que os ataques do governo federal à China não representam a opinião dos governadores: “São uma indignidade, inaceitável violência, preconceito, estigma, tentativa de desmoralização de um país amigo do Brasil”. 

Os governadores não saíram de mãos abanando. O embaixador chinês anunciou a liberação de insumos para a produção de 12 milhões de doses da vacina da AstraZeneca, além dos 4,6 milhões para a Coronavac, que já haviam sido noticiados.

No início de abril, mais de 280 representantes do agronegócio, do setor financeiro, da academia e da sociedade civil, reunidos na chamada Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, enviaram uma carta a Bolsonaro pedindo que o Brasil apresentasse na Cúpula do Clima, dias 22 e 23 daquele mês, nos EUA, metas mais ambiciosas de redução do desmatamento da Amazônia e das emissões de gases que causam a mudança climática. Bolsonaro se comprometeu a eliminar o desmatamento ilegal até 2030.

São apenas dois de muitos exemplos de mobilizações diante de ameaças palpáveis. No Congresso americano e no Parlamento Europeu são discutidas propostas de lei que proíbem a importação de produtos associados à devastação ambiental e à violação de direitos humanos, como de índios e quilombolas, por exemplo. 

A China é o maior fornecedor de ingredientes farmacêuticos ativos, com 40% da produção mundial. O Instituto Serum, da Índia, é o maior fabricante de vacinas do mundo, mas o país está mergulhado no maior surto de covid (o Brasil vem em segundo), e a empresa promete retomar as exportações só no fim do ano. 

Mesmo quando um governo mais bem preparado chegar a Brasília, é desejável que os diversos atores da sociedade brasileira continuem participando da formulação da política externa, como acontece nos países avançados.

*É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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